– Homens, preparem-se! Queimem esta vila até o último pedaço de reboco! Arrasem cada construção! Peguem tudo o que puderem! – gritou o general, e suas palavras encorajadoras foram repetidas por cada um dos comandantes de tropas ali presentes.
     A pequena vila Kalt na planície a frente chamava-se Kyrrlátur. Composta de cem casas de pedra e uma mansão no centro, pertencente ao comandante escolhido pelo Jarl da região. Moravam lá cerca de quinhentas pessoas. Era de certa forma grande, ao menos maior que as outras vilas desse povo que, com exceção da capital, vivia em pequenos grupos.
     Em pouco tempo, dois mil homens corriam na direção do injustiçado povoado, que ficara indefeso no vasto leste de Grimmurland. Poucas pessoas do exército deuto ficaram para trás. Apenas homens feridos, médicos, cozinheiros, uma guarnição de acampamento, tratadores dos cavalos, ferreiros, cocheiros e um jovem cavaleiro juramentado. Este nobre, chamado Isnardo Graf, era o único rapaz que ainda se mantinha inocente em relação aos significados de uma guerra.
 
     O rapaz tinha olhos verdes e pequenos, muito afundados em suas órbitas, suas sobrancelhas eram grossas e muito peludas; nariz protuberante que pesava em seu rosto acompridado; boca grande e lábios muito finos, formando uma estranha linha que cruzava de uma bochecha magra até a outra; orelhas de um tamanho que só podiam ser comparadas às de um senhor muito velho e ainda por cima elfo, como nos contos entoados à fogueira. Seu cabelo era negro e ralo, não crescia mais que um dedo e suas costeletas passavam três dedos do lóbulo da orelha; sua pele era muito branca, mas já estava pálida como morto, resultado do ano vivido entre viajem e batalha; era alto e magro. Trajava sempre uma armadura prateada com uma grossa cota de malha por baixo, protegendo sua cabeça com um elmo de batalha gradeado na frente.


     Isnardo estava recostado em um saco de cenouras, lendo seu livro sobre a fuga da nobreza renovadora para Veröld, onde foi fundado Neue Erde, o país deuto que prosperou. Era bem claro aos seus olhos que os renovadores não eram gente tão boa assim.

     O governo da época planejava escoar um rio de Jaden Vét para dentro das secas terras de Reich An Eisen, o velho país deuto. O próprio rei de Jaden havia estendido sua mão para ajudar. Mas os renovadores não aceitavam ajuda de um povo diferente. Tentaram sabotar o projeto de todas as formas, infelizmente obtendo sucesso. 
 
A fome matou um terço da população, fato que forçou o König a colocar suas cabeças a prêmio, assim mostrando serviço aos mineradores de todo o reino. Isnardo não acreditava que não tinha percebido isto antes, e já pensava no tempo em que isso vinha sendo mantido encoberto, uma omissão dos fundadores, e como tudo podia ter sido diferente, quando ouviu gritos:
     – Que os demônios carreguem você e suas desconfianças!
     – Um homem só pode ver o que quer, meu companheiro! Encare os fatos de uma vez por todas, e desertaremos todos juntos. Não suporto este pífio odor de carnificina que me invade as narinas nestas terras. Prosseguimos na destruição de uma nação que não é culpada de seus crimes, que nunca cometeu tais pecados! Nosso papel aqui é apenas o de enriquecer a família real e aumentar as terras do reino. Cansei-me!
 
     Em um pulo, Isnardo pôs-se em pé, procurando a direção do som daquela gritaria. Rapidamente, deu a volta na grande tenda que servia de refeitório para os cavaleiros juramentados e livres. Atrás dela, estavam ali parados oito homens; ambos baixos, esguios, sujos e machucados; e um bardo bastante elegante, trajando vestes de seda cor de vinho e carregando um alaúde nas costas.
     – Com que provas acusa esta companhia, bardo? – disse Isnardo, em um tom de voz exuberante e eloquente. O jovem tinha também o dom de se expressar.
     – Oh, meu nobre cavaleiro, não o havia visto, desculpe! Pensei que estivessem em batalha, Sir… – disse o bardo, tão elegante quanto um duque.
 
     – Isnardo Graf. Não acho que eu faça falta para tomar uma vila sem soldados. Se o inimigo não está lá, não precisarão desembainhar suas espadas. Também não acho certo roubar os bens desse povo pobre. De fato, não julgo minha presença necessária onde pouco ou nenhum sangue será derramado.
     O bardo e os homens trocaram olhares e começaram a gargalhar. O bardo, cheio de desdém, falou:
     – És um cavaleiro de primeira viagem, Sir Graf? Não pode estar falando sério, correto? Vejam só – ele prosseguiu em uma entonação sarcástica – Nenhum sangue será derramado!
     – Estou falando o que bem entendo no momento. E, ora, não troque o assunto. Por acaso a sua pessoa teria provas dos reais objetivos da companhia? Todos partimos sabendo que nossa missão é impedir que os Kalt construam barragens no rio Grau, que fica alguns quilômetros a oeste.
     – E por que não marchamos até lá?
     – Estamos marchando até lá!
     – Não, não estamos, Sir. Estamos marchando em direção à cada vila do leste de Grimmurland, que foram abandonadas pelos seus líderes. 
 
Quando foi descoberto o tamanho dessa companhia, o Jarl voltou para a capital, levando consigo seus soldados. Boa parte dos comandantes fugiram junto dos seus homens para as regiões vizinhas. Aqueles que ficaram para nos combater, uniram-se em uma única armada. Armada esta, que foi avassalada por nós faz poucos dias. Vim recolhendo documentos nas prefeituras de cada povoado saqueado, que provam minha teoria.
 
     O bardo parou de falar por um segundo, mas logo continuou:
     – Por isso, Sir Graf, é que eu tenho o pesar em lhe dizer, que fomos enviados apenas para anexar esta pequena região ao território do reino. O povo Kalt não pode contra nossos números enquanto estivermos marchando no descampado, bem sabes. Eles estão com medo. E digo mais, depois do que fizemos nos lugares que passamos, não haverá mais resistência até o Rio Grau. Nem pessoas nas vilas, nem armadas a nossa espreita. Depois, desceremos o leito do rio, confusos, com sangue inocente nas mãos e dinheiro roubado nos bolsos.
 
     O bardo tirou alguns papéis de suas sedas, e os entregou a Isnardo. Eram as tais cartas que continham as provas necessárias. A língua Kalt sempre foi alvo de estudo pelos deutos, por isso o Sir conseguiu ler e compreender finalmente que estava sendo usado por seu König. A ira lhe subiu a cabeça, fazendo-o jogar as folhas no chão e correr feito um insano até seu cavalo, e depois galopar em direção à vila de Kyrrlátur.
     De longe era possível ver o fogo nas casas, a fumaça no céu, e gritos desesperados de vozes dos mais diferentes tons e gêneros. Quando Isnardo alcançou a primeira rua da vila, desceu de sua montaria e jogou seu elmo no chão. A cena era a mais horrível de todas as que já tinha visto.
     Homens, mulheres e crianças jaziam mortos e cremados, envoltos em bolas de fogo que dissipavam também seus antigos lares. Suas entranhas estavam espalhadas pelas ruas, e seu sangue fora espirrado na areia. Alguns de seus ditos companheiros de batalha enchiam os bolsos com tudo o que era de valor que pudiam encontrar, enquanto outros estupravam as moças que ainda respiravam, estampando sorrisos em seus rostos como se aquilo não fosse nada. Alguns soldados cutucavam uns senhores capturados com a ponta de suas espadas, apenas para vê-los sangrar e gritar de dor. Alguns garotinhos eram arremessados às fogueiras ainda vivos, e gritavam enquanto suas peles cediam ao calor das chamas.
 
     Um homem repousava no solo com os membros quebrados, suas tripas à mostra e os olho saltados de seu crânio estilhaçado, que expelia os miolos na areia. E outro já estava também no chão, com as canelas fraturadas, prestes a ser pisoteado pelo corcel de batalha de um dos cavaleiros. Uma menina que aparentava ter entre doze ou treze anos, soltava ensurdecedores berros agudos enquanto era penetrada à força por um soldado. Um velho enfermo era queimado várias vezes por uma madeira em brasas que um comandante usava para cutucá-lo. Uma senhora era açoitada por outro soldado, sem nenhum motivo aparente.
 
     Pessoas choravam observando suas barrigas abertas, enquanto soldados subiam e desciam as ruas, matando os que respiravam e chutando órgãos no chão. Nenhum Kalt era poupado por uma boa lâmina de espada. A quantidade de cabeças rachadas, membros decepados, pedaços de carne humana e corpos cremados era horrível, perturbadora, nem a mente mais doentia deveria ser capaz de suportar tais imagens. O cheiro e os berros eram a pior parte. Há um sentimento de desespero indescritível no grito de socorro de uma criança, que só quem já ouviu um de verdade poderá entender.
 
     Isnardo ajoelhou-se, fechou seus olhos e tentou tapar os ouvidos, mas era impossível ignorar os gritos. Era o pior momento de sua vida. Percebia ali o erro que cometera ao virar um cavaleiro juramentado da Família Real De Neue Erde. Percebia todo o horror e repugnância que significava saquear uma vila. Kyrrlátur fora reduzida a um poço de tortura e morte no meio do frio da planície.
 
     O general devia explicações ao seu cavaleiro. Isnardo levantou-se, recolheu o elmo e andou vagarosamente, bambeando as pernas, e vomitando até a prefeitura no centro da vila. Nunca havia se deparado com um cenário tão hediondo.
 
     A prefeitura ainda se mantinha em pé. Era um grande casarão feito de pedra e com forro de madeira. Seu interior era um grande salão, cheio de grandes mesas, nas paredes haviam portas para depósitos, a prisão, a cozinha, a sala do ferreiro e do alquimista. No centro, acima de escadas, grande e imponente erguia-se o assento do Jarl. Ao fundo, uma escada ia para o andar de cima, onde estavam os aposentos da família do último a comandar a região.
     E naquela grande cadeira o general encontrava-se sentado, enquanto seus homens reviravam o lugar de cabaça para abaixo, à procura de algo que valesse a pena levar. Isnardo aprumou sua postura e adentrou o salão com passos firmes, olhando fixamente os olhos de seu líder, que o retribuía e sentia o ar de insubordinação.
 
     – Suponho que me deva explicações, meu general. – disse Isnardo, de nariz empinado – Me parece que suas ações não condizem com as palavras.
     – Ora, Sir Graf, resolveu vir até a vila? Pensava que não saqueava. O que quiser levar, eu te darei. – respondeu o general.
 
     – Eu não saqueio! Vim aqui para ter minhas dúvidas sanadas por aquele que diz lutar por uma nação que na verdade nada faz por eles, mas sim pelos nobres de maior nome.
     – Meça suas palavras, Sir.
     – Meça o senhor as suas atitudes! Um militar importante, que se diz tão ético, mas chacina um povo inocente e destrói seus indefesos vilarejos. Povo este, vos digo – Isnardo abriu seus braços, gesticulando e olhando para os soldados, que já prestavam atenção à discussão – que nunca teve sequer a mínima pretensão de construir uma só barragem, quanto mais em todos os afluentes do Rio Grau. Matamos e roubamos apenas para o ganho territorial da coroa de Neue Erde!
 
     O falatório no salão foi imediato. Os soldados não acreditavam no que ouviam. O general, absurdamente surpreso, disse em voz receosa:
     – Isto é um absurdo! Uma ofensa! Como ousa? Onde estão suas provas? Prendam-no agora!
     Os soldados desembainharam suas espadas e seguraram o Sir. Uma espada foi colocada em seu pescoço.
     – Cale-se! Ainda não terminei!
     O general enrijeceu todos os músculos de seu corpo. Os homens igualmente travaram, com espadas em mãos. 
 
Sir Graf conseguia sentir a gelada lâmina fazendo pressão contra seu pescoço. Olhou em volta, fixou-se no general, e então continuou:
     – Andei por esta vila e só o que vi atrocidades! Agricultores magros e desnutridos, mulheres de todas as idades e crianças de todos os tamanhos tendo suas vísceras espalhadas nas calçadas em frente aos seus antigos lares, já consumidos pelo fogo, que incendeia todo o lugar. E tudo isso enquanto nossos homens vandalizam, roubam, matam e estupram os cidadãos Kalt. Os corpos mortos, como se já não bastasse estarem abertos, são esquartejados e cremados, e os soldados, até mesmo os cavaleiros, fazem isso de bom grado! Me explique, seu hipócrita sórdido! Diga de uma vez por todas! O que é isso?
     – Guerra.
 
AUTORDelatorre