Os Conceitos Libertistas De Um Povo Democrático

– Qual é o interesse do povo aqui, em terras francas?
– Já lhe disse, viemos em paz. Precisamos dialogar. Atualmente, Librement é o maior produtor de trigo de toda Veröld. Eu, Abelardo Bender, venho em nome da Coroa Deuta de Neue Erde, negociar um tratado comercial de troca desse produto tão valioso para meu povo.
Abelardo era um grande general do exército deuto. Alto, forte, bruto feito um urso; de cabelos lisos e negros, barba volumosa; olhos verdes e sobrancelhas arqueadas; nariz vermelho, lábios escondidos pelo bigode e dentes afiadíssimos; orelhas pequenas e pele branca como látex. Vestia uma saia grossa que ia até seus calcanhares, cobrindo as fivelas de suas botas de ferro; um peitoral de ferro pintado de branco, sem nada por baixo, deixando ombros e braços à mostra; e grandes luvas pretas, sendo que em seu dedo anelar da mão direita, usava um anel com o símbolo da pirâmide deuta.
 
O silêncio tomou conta do salão de banquetes, um vasto cômodo com cento e cinquenta mesas, acolhendo quinhetos homens para a refeição. Suas paredes eram altas, as colunas eram bem trabalhadas. Seu teto tinha belíssimas pinturas e suas janelas eram vitrais com verdadeiras obras de arte. Em seu fundo, uma porta para a cozinha, e mais ao lado, a mesa da nobreza. À frente de todos os presentes, grandes portas de madeira davam para os corredores do grande palácio representativo.
 
– Me desculpe, grandíssimo General Bender. Creio que todos nós aqui concordamos que tal acordo não é economicamente viável para os cofres públicos do país – disse Abílio Lafaiete. Seus colegas, sentados em seu lado da mesa, acenaram suas cabeças em sinal de concordância.
 

Abílio era o Représentant, cargo máximo dos três poderes políticos de Librement, este, sendo escolhido pelo povo, em uma eleição que demora seis meses. Um senhor baixo, de aparência frágil; cabelos castanhos, sem barba; olhos castanho-escuros, sobrancelhas finas; nariz rugoso, lábios ressecados; orelhas grandes, ouvidos peludos; pele branca e envelhecida. Vestia uma túnica branca, sem quaisquer detalhes, um sapato preto e uma boina de pele de guaxinim. Os políticos deste país tinham uma vida simples, com pouquíssimas regalias.

– Pelo que vi de sua capital, Sud Portuaire, creio que os cofres públicos têm sim a capacidade de custear o frete do trigo. Minha proposta é que envie seu produto para Neue Erde, e, em troca, ofereceremos a devida proteção militar para seu país contra a Ádria.
– Desculpe, Abelardo. Mas já faz trinta e cinco anos que não temos problemas com nossos vizinhos além do Mar Ádrio. Sua proposta não tem embasamento algum.
 
– Ora, senhor. Como recusa assim nosso tratado? Você não pode. Pelo que sei, seu dever é convocar um plebiscito sobre o assunto.
– Não, General. Sozinho, nenhum político de Librement tem capacidade de tomar qualquer decisão. O que faço, juntamente de meus companheiros, é moderar o que acontece no país.
– Como assim? Quem tem o poder aqui?
– Não existe poder nesse governo. Apenas moderamos os projetos de estado. O povo decide tudo. E tua proposta fere a base de nossa constituição. O direito de liberdade. Não podemos forçar os produtores de trigo a entregar tudo para Neue Erde. Mesmo que a Ádria fosse uma ameaça real, isso fere os direitos do povo.
 
– O que? Percebe a estupidez das suas palavras? Um país precisa de seu poder!
– Não, General. Um país precisa de união.
– Mas poder é ordem!
– Poder é caos e revolta. União é ordem. Um mal estar entre povo e governo só pode resultar em golpes, vandalismo, e violência em geral. O povo tem o direito de decidir o futuro da pátria. Os representantes apenas olham para que nenhum projeto vá contra as leis, a constituição, a igualdade, ou a estabilidade econômica.
– Não é assim que a política funciona, meu caro! O poder centralizado na Coroa decide pelo povo, pois eles não tem discernimento do que é bom ou ruim para a nobreza! São um bando de desinformados!
 
– Em suas terras, são sim, porquê são censurados pela Coroa. Já os francos de Librement têm acesso a informação, e o direito de saber, de estudar, de conhecer. Porém, mesmo em Neue Erde, o povo sabe o que é melhor para ele mesmo. Nobreza deve ser conquistada com o próprio trabalho, e não com a exploração dos pobres.
– Rejeita meu tratado e insulta minha pátria! Como ousa? Do lado de fora da cidade, tenho homens suficientes para reduzir a capital à pó. Creio que tenha ouvido falar do que aconteceu ao leste de Grimmurland. Meu comando fez toda uma região sucumbir ao poder da Coroa!
– Sim, ouvi tais histórias! Contavam como você e suas tropas chacinaram pessoas inocentes e destruíram cidades indefesas! Já não havia resistência na região, e mesmo assim, continuou o massacre de cidadãos comuns!
– Chega!
 
Abelardo levantou e sacou sua espada. Todos os seus homens presentes no salão também. O senhor Lafaiete esbugalhou seus olhos, sem mexer um músculo. O general sorria. Poucos francos na sala carregavam espadas. Era uma situação delicada para os anfitriões.
– Então, senhor franco – disse Abelardo – que acha de meu tratado agora?
– Deixe-me contar uma história, General – disse Abílio – Quando era apenas um jovem rapaz, Librement tinha um rei. O povo passava fome, e vivia na ignorância. Surgiu um grupo que queria melhorar a qualidade do país, ensinando pessoas. 
 
Assim, haveriam melhor comércio, agricultura, administração, pecuária, e cultura. Juntei-me a eles. Fomos caçados pela Coroa. Em certo ponto, a violência chegou ao ponto de milhares de cidadãos serem mortos nas ruas.
Abelardo abaixou um pouco sua lâmina. Abílio suspirou, e continuou:
– Juntamos o povo em um exército improvisado, e em meio a tantas mortes, tomamos o controle do país, que finalmente unira-se em uma nação. Mas o novo governo, embora desse estudo para todos, não dera liberdade, algo que todo homem procura durante toda sua vida.
 
– Continue.
– Elaborei em segredo, uma ideologia libertista. Juntei aliados, que espalharam as ideias para o povo. Logo, o descontentamento chegou a um nível crítico, e, na primeira chance, instaurou-se o regime Democrático-Libertário. A questão para que duas revoltas tenham acontecido, é que um homem não quer ser marceneiro porquê seu rei mandou. Ele quer escolher seu futuro, tomar suas próprias decisões.
– Entendo seu pensamento. Porém, continuo não concordando. Ter poder é muito melhor do que ajudar os miseráveis. Que morram todos os pobres de Neue Erde se isso for necessário para que eu e meus homens continuemos a ter privilégios!
– Este é o problema do poder. Um homem nunca mais será o mesmo depois de tê-lo. Vira um ser perverso e egoísta, disposto a destruir as pessoas em sua volta. Meu país é feliz há quarenta anos, por causa da união. Vivemos em paz uns com os outros.
– É sua última chance, velho. Aceite o acordo comercial.
 
– Me desculpe. A Coroa pode ampliar sua influência em toda Veröld, mas não em Librement.
Abelardo fez sinal para que seu escudeiro chegasse mais perto.
– Vá até as tropas fora da cidade. Diga que eu os ordeno a dividirem-se em dois grupos. Um saqueará a capital, e o outro irá até as plantações para pegar nosso trigo. Matem todos!
Os soldados da Coroa atacaram os francos, perfurando-os com suas espadas. Abelardo perfurou Abílio abaixo do pulmão direito. Em seguida, o General arrastou o homem até o centro do salão.
 
Os representantes tentaram impedí-lo, mas foram mortos pelos soldados inimigos. Os moradores da cidade, percebendo a situação, preparavam-se para lutar com os invasores. Nenhum franco renderia-se aos deutos.
 
Em meio aos corpos, Abelardo colocou Abílio ajoelhado, com a cabeça repousada em um banco. Então gritou:
– Povo de Librement, vejam seu líder morrer! Vou cortar-lhe a cabeça!
As espadas pararam de imediato. Todos observavam os dois homens mais influentes do local, no momento crítico da noite. O General sorriu mais uma vez. Olhou para o senhor e disse:
– Terá para sempre minha imensa admiração. É um homem disposto a morrer por seus ideais. Um caráter raro hoje em dia. Mas, seus conceitos são errados. A elite tem que controlar o povo. Suponho que já sabia que isto tudo é uma ilusão.
– Não. O Regime Democrático-Libertário é o futuro do mundo.

Autor: Delatorre