A Guerra Sagrada De Ib

– Recebeu a notícia, senhor?
– Sim. É com profundo pesar que soube das infindáveis mortes de meus compatriotas no Mar Ádrio – disse o Herr de Trocken Mine, Lidefonso Kelda – O Rei da Ádria repudiou o golpe militar acontecido em Librement. Quando soube que tropas deutas atravessavam a água em direção ao seu porto real, ordenou que a marinha afundasse todas as embarcações viajantes. E, sabem bem, que não temos nenhum valor em uma batalha naval. Suponho que nem mesmo nosso bom amigo, Abelardo, tenha sobrevivido.

Lidefonso era um um homem branco, baixo e magro. Tinha olhos verde-claros e sobrancelhas grossas; seus cabelos eram lisos e negros, e sua barba cumprida; nariz pontudo e orelhas pequenas; seus lábios eram finos, e seu dentes brancos e bem tratados. Era conhecido por transformar suas terras, uma mina esvaecida, em uma rentável plantação, produzindo diversos alimentos, devido ao sistema de rodízio de terras. 

Trocken Mine é uma região à trezentos e quarenta quilômetros de Neue Hauptstadt, capital de Neue Erde.
– Digo que ele vive. Abelardo é um homem forte demais para morrer afundando com um barco. Boas notícias estão por vir – disse Gotardo Kayser, o Príncipe Herdeiro do König Ibsen – sei que o exército de meu pai triunfará contra os inimigos da Coroa. É o que Ib planejou para Veröld.


Gotardo era o filho primogênito de Ibsen Kayser, o quarto König de Neue Erde. Era jovem, branco, alto e muito forte. Seus olhos eram azuis como o Mar Sírio e suas sobrancelhas eram douradas; seus cabelos eram lisos e loiros, sua barba parecia um monte de fios de ouro; seu nariz e orelhas tinham um aspecto rude, assim como os lábios; seu rosto era másculo e bonito, o delírio das damas da capital. Sua força, masculinidade e beleza constituíam o esteriótipo de um homem deuto perfeito.

– Abelardo é apenas um homem, como qualquer um de nós – disse o Comandante Genival Schaffer, em um tom prudente – E digo mais, não creio que ele voltará para casa tão cedo. Nosso König se irritou profundamente com o ataque adriático, e ordenou que os Generais Gonçalo Stumpf e Klaus Grimbald fossem apoiá-lo em uma invasão à Ádria.
– Como assim, Comandante? O General Grimbald estava em Grimmurland. As terras anexadas não podem perder a presença militar tão cedo – disse Lidefonso.
– Novas tropas movem-se até lá. Logo, serei eu a viajar para a terra Kalt.
O Comandante era branco, baixo e pouco forte; tinha olhos negros e sobrancelhas grossas; cabelos pretos, barba apenas no queixo e bigode; seu nariz achatado e orelhas curvas; o lábio inferior curva-se formando um m bem aberto, e o inferior formando um u também esticado; tinha rugas de expressão que iam da base do nariz até as bochechas, e outras três na testa.

– E quem será teu General? – perguntou o príncipe.
– Heinz Hamman.
– O oitenta e oito? – disse Libefonso – é um homem muito traiçoeiro.
– O rei julga que esta seja a escolha certa. É tudo o que precisamos saber. Como tudo nesse país.
– O que insinua com isto, Comandante? – perguntou o príncipe.
– Nada, alteza. Estou aqui apenas para servir, ignore-me.
– Já o estava.
– Como sempre.
– Calado! – o príncipe deu um soco na mesa. O estrondo encheu a pequena sala de refeições da corte – dou-lhe a honra de ter vindo tomar meu desjejum em vossa presença, e é assim que agradeçe?
– Desculpe-me, alteza. É realmente muito bondoso de sua parte fazer companhia a um humilde comandante e um Herr que mora tão longe. Mas, com todo o respeito, meu Príncipe, nenhum de nós dois pediu para ter tal honra.

– Meu Príncipe, ele não quis… – falou Lidefonso, tentando amenizar a situação, mas foi bruscamente interrompido por outro grito de Gotardo.
– Sim, ele quis! E disse com todas as palavras! Como ousa insultar seu Príncipe, Genival?
– Comandante Genival – ele corrigiu o príncipe – E digo mais, tu não és meu príncipe, nem de ninguém em Neue Erde. És o príncipe de Ib. E Ele, meu garoto, é um Deus que tem seus próprios objetivos.

– Não ouse falar de Ib, Comandante – disse Lidefonso – Está passando dos limites de um desafeto. Quer ser acusado de traição?
– Acusem-me! Quero ver arranjarem outro Comandante a tempo para a viajem até Grimmurland.
– Ib tem sim seus próprios objetivos – disse Gotardo – ele quer que o povo deuto governe todo o continente de Veröld!

– Não! Ele quer que seu pai governe! E agora jogou homens deutos aos montes para a morte em pleno Mar Ádrio. Anote o que digo, príncipe. Não demorará e muitos nobres irão se virar contra a coroa.
O Comandante levantou-se de sua cadeira e saiu da sala, pisando duro. O príncipe sentou-se e contraiu todos os seus músculos, efervescendo de raiva. Lidefonso o observava com uma expressão tensa.

Era sabida por todos os deutos a tal passagem no “Livro Sagrado De Ib”. Dizia que o quarto descendente de Aurick Kayser, o primeiro profeta a vir ao mundo, se chamaria Ibsen. O filho de Deus que vem para governar. A Coroa se expandia em nome da religião. Seria mesmo isto, ou seria o König simplesmente aumentando suas riquezas, como qualquer grande monarca faria? A questão é que o povo acreditava tanto em seu livro sagrado, que estava disposto a morrer por seu líder.

– É desejo de Ib, tu bem sabes – disse Gotardo – Que meu pai governe soberano por todas as terras, e que eu o suceda como líder. São planos arquitetados desde os primórdios da humanidade. Antes de Neue Erde, antes mesmo até do povo deuto. Tu sabe disso, não sabe, Lidefonso?
Lidefonso exitou por um momento. Então disse:
– Sim, alteza. Nada acontece que Ib não queira.
– Tolice! Ib não tem poder aqui! É tanto que escolheu meu pai para concretizar seus planos! Este é o problema Lidefonso. Ib não tem poder. Sim, ele fez o mundo e o faz funcionar normalmente. Mas não pode mudar o que nós, homens, fazemos ou deixamos de fazer. Tudo o que Ele tem de nós é um voto de boa fé.

– Entendo, alteza. O que quer dizer com isso?
– O Comandante Genival Schaffer é um destes homens que põe todos os planos de Ib a perder. Um daqueles que cospe nas páginas do livro sagrado.
– E o quê quer que eu faça?
– Mande matar o Comandante. Imediatamente!

Autor: Delatorre