Indícios De Homicídio

– É este o tal bardo, Graf – disse um guarda, empunhando uma espada curta na mão direita, e segurando o poeta pelo braço com sua mão esquerda.
-Tragam-no até aqui – disse o Graf. Tinha a fúria de um leão embalsamada em seus olhos, pedindo para ser liberta. O grande salão estremecia suas altíssimas vigas com a presença de espírito de seu dono por direito.
 
O bardo foi jogado nas escadas em frente à grande poltrona. Ele tinha cabelos negros e longos, barba feita; olhos azuis e sobrancelhas arqueadas; orelhas finas e delicadas, nariz pequeno e arrebitado; boca carnuda e vermelha, dentes perfeitos, com caninos bem afiados; pele branca como neve, alto e esbelto. Era bastante elegante, trajando vestes de seda cor de vinho e carregando um alaúde nas costas.
 
– Me desculpe, meu senhor, mas não consigo me segurar diante o seu nome – o bardo soltou uma leve risada, olhando para os pés de seu captor – Graf Graf! Oh, meu bom Ib, teu filho tem talento tanto para governar Veröld, quanto para a comédia! Dar o título de Graf para alguém com este sobrenome!
 
Graf levantou-se e chutou o bardo, mas não teve muita força. O nobre tinha cabelos pretos e ralos, barba grande e cheia, seus fios estendiam-se um palmo após o queixo; olhos verdes e pequenos, afundados em suas órbitas, suas sobrancelhas eram finas; nariz protuberante, orelhas largas e avermelhadas; boca grande e lábios grossos; sua pele era muito branca, era alto e muito esguio.


– Tens a ousadia de estar sobre minha custódia, e ainda assim me ofender? Onde está seu juízo? – disse Graf.
– Não sei, Senhor! Mas eu sei cantar! Quer ouvir “As Tensões Kayser-Berger”? Toco-a muito bem! Ou gostaria de uma de minhas composições próprias? Chamo-a de “As Inverdades Políticas”! Conta a história de um Sir que fora enganado por seu General. Ele se irritou por isso, e como! Desafiou seu líder e perdeu a cabeça.
 
– O quê? De que se trata esta sua música? Quando ela se passa? Explique-se!
– Sim, é o quê está pensando. Eu o conheci durante o saque à Kyrrlátur. Vinha interceptando cartas tanto dos Kalt quanto da Coroa. Descobri que o plano real era de anexar o leste de Grimmurland, como realmente aconteceu à um ano.
Graf sentou-se novamente, Seus olhos lacrimejavam, enquanto sua mão esquerda cobria a boca.
 
– Eu contei à ele tudo o que sabia, pois fui forçado pelo mesmo. Abelardo estava participando do saque na cidade. Ele foi buscar explicações com o General, e voltou sem a cabeça. Meus pêsames.
O homem debulhou-se em lágrimas. O bardo engatinhou-se devagar, em direção à Graf. Ajoelhou-se e repousou suas mãos nas coxas do nobre. Levou sua boca até a orelha do pai aflito, e sussurrou:
 
– Foi o próprio Abelardo que o fez.
Graf deu um soco no bardo, que rolou escada abaixo. Seus guardas o seguraram.
– Quem é você? Quem o mandou até aqui, para dizer isso? Já faz um ano que meu filho morreu, e desde então, o General Abelardo tomou não só o sul de Grimmurland, como também restaurou nossa dominação sobre o Estreito De Pêcheur! É um homem competente para o exército, e influente com a Coroa!
 
– Meu nome é Maximiliam Kllug, e eu sou um bardo! Vim até aqui, com tal informação, à mando de minha própria consciência! Pois, até onde entendo, teu filho morreu para encobrir as mentiras do nosso König! Ibsen Kayser não se importou com sua perda, e nem sequer apareceu para prestar condolências!
 
– Quer que eu me oponha ao König, em tempos de Guerra? Seu tolo! Morreria em uma noite!
– Não, o quê venho lhe suplico, realmente, meu Graf, é para que busque justiça por teu filho, pois eu não posso buscá-la. Não sou um nobre, nem tenho a influência para acusar Abelardo.
– E eu não tenho as provas. Se não estivesse preso na Ádria, ele próprio me mataria.
– Eu tenho todas as cartas aqui, Meu Graf. Trouxe-as comigo por todo esse tempo, e agora quero que fique com elas.
 
O bardo tirou um monte de cartas do meio de suas sedas, e entregou para o Graf, que sentou-se e começou a ler. Leu por alguns minutos. Amassou o punhado nas mãos e arremessou no chão. Levantou-se e gritou:
– Maldito seja o König! Maldita seja a Coroa! Maldito seja o filho de Ib! É este o homem que nosso Senhor Criador escolheu para governar o mundo? Nunca! Nunca! Homens, preparem uma caravana, pois nós iremos até Neue Hauptstadt! Bardo Maximiliam, você irá junto comigo!
 
– Não, Meu Graf, é uma má ideia me levar até lá! Quem sou eu para acusar um General?
– Meu novo protegido! Partiremos amanhã!
O bardo foi levado por entre os corredores da fortaleza da família Graf, que ficava em Neuen Grau, até um quarto grande, luxuoso e arejado. Ele pegou uma pena encima da cabeceira, um papel na mesa, e pôs-se a escrever a seguinte mensagem:
“Ao Lord Rinehardt:
 
Graf acredita em mim, tanto que me tomou como protegido. Agora, seguiremos para a capital, para que ele peça justiça contra o General.
Maximiliam Klug”
 
Ele terminou, e foi até a janela. Não demorou muito para que um corvo pousasse em seu ombro. Prendeu a mensagem à pata do animal, e o jogou para o ar. A ave foi embora. Até onde a vista do bardo alcançava, tudo era cinza. Em cada colina havia uma mina de ferro.
“Devia ter ficado em Baumgarten, as florestas eram mais agradáveis”, pensava ele. Mas sua ambição de alcançar a nobreza sempre o levara longe demais. E, desta vez, com certeza, perto demais.
 
Enquanto isso, no grande salão, Graf conversava sobre a intriga com seu conselheiro. Este, era um senhor crioulo-siriano, vindo de Uttama Mannina. Os estudiosos vindos de lá, são chamados de Shihans.
– Como pode algo tão cruel acontecer? O próprio König mandou que matassem meu filho!
– Meu Graf, não sabemos se isso é realmente verdade. Devemos analisar calmamente todas as informações que temos. Não sabemos nem mesmo de onde o tal bardo veio.
– O tal bardo esteve junto de meu filho na campanha! Ele deseja a justiça tanto quanto eu. E nós iremos tê-la.
 
– Que justiça, Meu Graf?
– Pelo assassinato de meu filho! Abelardo pagará com a vida, e Ibsen se desculpará publicamente, ou não sairá daqui mais nenhuma grama de ferro.
– Isnardo era um bom rapaz. Lembro-me do quanto ele gostava de minhas lições, quando menino. Mas já morreu há um ano.
 
– A justiça pode tardar, mas não irá falhar!
– E o quê é justiça tardia, senão injustiça premeditada e qualificada?

Autor: Delatorre