O Estrondo Das Galés
A margem do Mar Ádrio era uma faixa de areia cinquenta metros de extensão. Logo após, vinha uma mata densa, cheia de vida e frutos. Abelardo estava deitado naquela beleza toda. Mas não estava ali para aproveitá-la.
 
Ele se levantou, ainda meio confuso. Havia madeira quebrada e ferro retorcido para todos os lados. Muitos suprimentos e equipamentos estavam espalhados. O sangue dos feridos se misturava à areia, em um unicolor hediondo. Os soldados corriam de um lado ao outro, ajudando seus companheiros, procurando seus pertences e separando tudo o que fosse útil para a companhia.
 
No mar estavam os patachos libreanos e as galés ádrias, travando uma batalha naval, algo raríssimo de se acontecer. O vento soprava muito forte, balançando as velas, e o sol irradiava as águas. Patachos eram barcos movidos à vela, leves e rápidos. Possuíam dois mastros. Sua vela de proa era redonda, e a de ré era latina.
 
Galés eram barcos compridos e finos, de baixo bordo. Movidos à remos e velas. Tinham três mastros, todos com uma vela redonda. Havia um esporo em sua proa. Era uma batalha complicada. Os doze patachos que restaram dos trinta estavam parados. Seus marinheiros e soldados tentavam manobrar para escapar das quinze galés, que se afastavam, davam meio volta, abriam suas velas e remavam à toda velocidade, chocando os esporões de proa contra o inimigo, ataque este conhecido como abalroamento.


No momento do choque, os esporões arrebentavam os cascos dos patachos, que revidavam com ataques de arqueiros. Devido à velocidade e ao balanço do encontro, era difícil acertar as flechas, mas os galerianos estavam desprotegidos e podiam ser facilmente atingidos, deixando as galés sem sua velocidade total nos remos.

Por mais que os deutos tentassem, as galés estavam em claríssima vantagem, e afundavam cada vez mais inimigos. Restando poucos patachos, a escolha mais sábia era tentar uma retirada total. Mas não havia espaço para voltar até Librement, muito menos para vir até a praia da Ádria. Abelardo gritou para um soldado perto dele:
 
– Ei, você, ache um corvo agora! – olhou em volta e começou a gritar – Reúnam os feridos embaixo daquele casco! Levem os médicos para lá! Juntem os equipamentos na areia aqui! Levem os alimentos pra debaixo daquelas ferragens! Virão nos pegar por estas florestas! Quero que cavem uma trincheira em frente à mata, e coloquem algumas estacas lá! Façam
uma barricada com os destroços à vinte e cinco metros da trincheira! Vamos, temos pouco tempo!
 
Os homens começaram a trabalhar, obedecendo as ordens de Abelardo. No mar, mais dois patachos afundaram. Nenhuma galé tinha sido perdida, apenas algumas centenas de galerianos. Um homem trouxe um corvo para o General, que prontamente pegou uma casca de madeira e entalhou com sua faca a seguinte mensagem:
 
“Ao Comandante que receber esta mensagem,
Está no comando dos barcos restantes. Mande todos se preparem para viagem à toda velocidade. Voltem para Librement. Dirijam-se ás galés posicionadas no sudeste, e façam a abordagem. Abrirão um espaço para recuar. Eu e os homens aqui ficaremos bem. Mandem um pedido de ajuda para a capital.
General Abelardo.”
Ele deu a casca para o corvo, torcendo para que o animal não a derrubasse, e este saiu voando em direção aos patachos. Abelardo virou-se e começou a ajudar os soldados em terra.
 
Os patachos baixaram suas velas, navegando na direção sudeste. Uma galé veio do oeste a toda velocidade. Pegou de raspão no casco de uma das embarcações inimigas. No meio tempo para fazerem a ré, os soldados deutos pularam aos montes para dentro do barco. Os galerianos levantaram-se e revidaram. Os arqueiros puderam finalmente fazer mira. Os remadores foram massacrados e a galé incendiada. Esta era a técnica de abordagem.
Outra galé partiu com violência do sudoeste e bateu do outro lado do patacho recém-atingido, abrindo um buraco no casco. Os arqueiros atiraram o mais rápido que puderam, mas não conseguiram boa mira. A proa da embarcação começou a embicar, e todos pularam na água, no intuito de nadar até a praia. Os galerianos passaram batendo seus remos contra os que estavam jogados ao mar.
 
Três patachos iam à frente no sentido sudeste. Um deles virou para o leste, sendo seguido por uma das galés que impedia a fuga. Ela abalroou a embarcação perseguida, mas foi abordada por outro patacho que veio logo atrás dela.
 
O terceiro patacho continuou o curso. Uma galé veio do sudoeste para o abalroamento. O patacho virou noventa graus, fazendo o barco inimigo emparelhar-se com ele. Os soldados deutos pularam para a abordagem, e colocaram fogo no convés dos galerianos.
 
Os onze patachos restantes passaram pelo buraco na formação das galés, em direção sudeste, sendo imediatamente seguidos. Uma delas estava prestes a abalroar o navio de retaguarda, mas este fez uma volta de cento e oitenta graus, emparelhando-se e fazendo a abordagem. Foi atingido por um inimigo após começar o ataque, e logo foi acertado novamente.
 
Os patachos e galés foram sumindo de vista. Agora, tudo o quê Abelardo podia fazer era torcer para que pelo menos oito embarcações conseguissem voltar para a taracena em Sud Portuaire. Agora, no mar, haviam apenas uma quantidade gigantesca de destroços, suprimentos estragados, e centenas de corpos. O vermelho predominava tanto na água quanto na areia. Os soldados na praia continuaram trabalhando, até anoitecer. Alguns feridos tiveram de ser sacrificados, para evitar doenças. Os homens fizeram suas necessidades na água salgada, para neutralizá-las. Não foi possível acender fogueiras, e os alimentos estavam encharcados. Enquanto muitos tentavam dormir, alguns ficaram de sentinelas, para o caso de um ataque noturno.
 
Obviamente, nenhum ádrio veio até a praia durante a noite, pois a mensagem indicando a posição dos náufragos não chegaria assim tão rápido. Mas, era certeza de que até a noite do dia seguinte, o acampamento fosse atacado. Abelardo iria lutar até o fim, não importasse o quê fosse acontecer com ele. Aqueles soldados o seguiram até ali, pois tinham plena confiança em seu General, e deviam ser honrosamente retribuídos com a total bravura de um grande líder.
 
Um ataque veio da mata. A primeira fila de escudos caiu inteira na trincheira feita em frente às árvores. Os ádrios derrubaram tábuas por cima dos buracos e passaram a atravessá-lo. Os deutos pegaram seus arcos e os flecharam, derrubando tropas e negando avanço hostil.
O acampamento foi alcançado, mas a barreira de destroços era intransponível. Os ádrios foram obrigados a tentar uma fenda na cerca. Foram afunilados ali, e massacrados pelos deutos. A batalha do dia havia sido vencida. 
 
Um comandante olhou para o General Abelardo, e disse:
– Ganhamos hoje, Senhor. Mas eles voltarão amanhã, e depois, se vencermos. E então, virão pelo mar! Nos cercarão como puderem! O que nós faremos?
– Deixe que eles venham amanhã outra vez. Então, levantaremos acampamento e iremos para a cidade mais próxima. Viajaremos sempre para o sudoeste, em direção à Neue Erde. Não desistirei de salvar o maior número de soldados possível. Lutaremos até o fim!
 
Autor: Delatorre