Os Guerrilheiros Negros

– Pas d’ennemis dans la région – disse um rapaz montando um cavalo branco de médio porte.
– Impossible. Regardez à nouveau – disse o homem no garanhão negro. Vestia uma armadura de aparência rude, sem pinturas ou ranhuras, nem decalques; sequer um broche para segurar uma capa, ou presilhas de cobre. Era uma mancha metálica fosca em meio à densa floresta de altíssimas árvores frutíferas.
 
Havia uma tropa de trezentos homens ali, revirando capa pedaço de verde por onde passavam. Nenhum cavaleiro ou espadachim. Apenas agricultores com piques, tridentes, inchadas e punhais, que haviam respondido o chamado de seus Senhores.
 
– Oui, commandant – respondeu o rapaz, e balançou as rédeas, fazendo seu animal mexer-se.
Embrenhou-se por entre dois caules de mangueira, levando o olhar para cima. Suspirou assustado por um segundo, e seu cavalo branco foi engolido pela terra, passando por entre as folhagens. Ouviu-se o guincho do pobre animal. Um homem correu na direção oposta, e foi levantado por cima dos galhos das árvores. Seu companheiro levantou o pé direito para correr, colocou-o à frente, e teve a perna estraçalhada por uma boca de madeira de eucalipto. Ouviu-se um zunido, e um homem foi ao chão. O mesmo som, agora ecoando, e três combatentes jaziam mortos.
 
– C’est un piège! – gritou o commandant, e uma haste de madeira bateu em seu peito, ricocheteando.


Ao que o zunido ecoava mais forte, corpos negros caíram das árvores, carregando ferro cortante. Esganiçavam a tropa, que em cinco minutos, se dispersou. O commandant foi cercado, e seu garanhão, morto. Sua armadura era impenetrável. Uma lança se partira em suas costas. Cansado e cercado por inúmeras sombras, ele se deu por rendido.

Uma das sombras parou em pé atrás do commandant, ajoelhado. Este retirou seu elmo, e disse:
 
– Abelardo! Grande général!
– As minhas graças ao Bom Ib – respondeu a sombra, antes de quebrar o pescoço do cativo. Virou-se e gritou – Nefen Ackermann, junte uma coluna para escoltar o caminho à frente! Onnan Bachmann, cuide do desarme das armadilhas! Helmer Fischer, assegure-se de que
temos provisões para a viagem! E Jorg Hockensmith, meu bom amigo, ajude-me a tirar a armadura do pobre comandante adriático!
 
Um homem pulou para o lado de Abelardo. Era muito alto, fino, porém forte. Tinha cabelos castanho-escuros, crespos e emaranhados; olhos castanhos, sobrancelhas um pouco afastadas, com as pontas de fora apontando para baixo; nariz irregular, orelhas coladas; boca fina, lábios rachados, faltando-lhe dentes; com um ar jovial e expressões na testa; pele branca, mas sem a intensidade dos nobres. Vestia um colete de couro sob uma túnica preta, suja, velha e surrada; suas botas de couro de vaca estavam cobertas de terra e folhas presas.
 
– É uma bela armadura, Senhor. E impenetrável. De que é feita? – disse o tal homem.
– Sim, Jorg, é belíssima. Viu o adriático lutando, parecia um elemental de ferro, como nas histórias de magia das crianças, e não se deixa vencer por qualquer arma. Algo de extremo valor que temos aqui. Uma armadura completa de aço temperado. O comandante devia ser alguém importante para ter isso.
 
– Não poderíamos então tê-lo feito um prisioneiro? Digo, somos dois mil náufragos maltrapilhos em terras hostis. Ele poderia ter negociado nossa volta para casa. Cansei de saquear as cidades para sobreviver.
– Não seja um tolo, Jorg. Andamos duzentos e quarenta quilômetros, no mínimo. Deixamos uma linha bem demarcada neste solo. Tantos mortos quanto pudemos, e tantas construções queimadas quanto quisemos. A estratégia de guerrilha foi mais que sucedida. Ouvi falar dela por um Foløkse, lá das terras do oeste. Funcionou com Ulrick, o rei da água infinita, então funciona para mim. Mas sua eficácia será motivo de vingança, e esse sangue nobre que matei é prova viva disso.
 
As táticas de batalha em guerrilha minimizara as perdas de Abelardo até o momento. Da praia até aquela mata úmida e tropical, perdera três dos cinco mil sobreviventes do Estrondo Das Galés. Em todo canto que foram, as palavras corriam soltas em cada boca franca sobre a maior batalha naval já vista.
 
Usavam inúmeras armadilhas, incêndios, invasões noturnas, ataques de bate-e-sai(um grupo de cinquenta arqueiros que dispara duas saraivadas nos inimigos desavisados, e em seguida se embrenhava no mato, até que pudesse atacar outra vez), e roubo de caravanas para subjugar o exército adriático. Derrotaram tantos, que alguns homens diziam para marcharem para o norte, em direção à capital da Ádria.
 
– Jorg, me serviu excelentemente na situação atual – disse o General, enquanto os dois soltavam a armadura do cadáver – Penso te fazer um cavaleiro quando chegarmos em casa.
– Herr Jorg Hockensmith? Meu senhor, não seja você um tolo. Atente para meu sobrenome. Qualquer um pode carregá-lo. Não sou nobre, e não ganharei títulos de nobreza.
– É o meu desejo, homem. Irá rejeitar um presente meu? Desonra-me.
– Honrou-me muito quando fez trinta mil homens avançarem Mar Ádrio adentro somente para morrerem afogados.
 
– Vigie tua língua, plebeu. Quem tomou o estreito de Pêcheur?
– Minhas desculpas, General – disse Jorg, curvando seu tronco por cima do morto, para reverenciar seu líder – Mas, é aí que está o problema. Sou um plebeu, não um Herr. Não posso ser espada juramentada de sua casa.
– Confio em você como confio na minha escada. Se sairá bem. Escolha um brasão de armas para tua futura família.
 
Jorg retirou o gorjal do cadáver e o jogou na folhagem do chão. Então, uma pequena rã pulou sobre ela. Era amarela-dourada em seu dorso; tinha olhos grandes e negros, e manchas pretas em sua barriga e patas. Estava úmida de algo parecido com suor, fazendo os raios de sol que entravam das fendas nas copas das árvores refletirem. Abelardo projetou-se à frente e pegou-a na mão.
 
– Ora, se não é um animalzinho belíssimo – disse Abelardo, alisando a rã. Ela escapuliu e pulou em seu rosto, e depois, nas folhagens, desaparecendo – Arisco como o povo franco.
Uma hora depois, Abelardo se contorcia em uma rede de cipós. A dor o consumia como um bêbado toma seu vinho, voraz e rapidamente. Sentia seus órgãos fumegarem, como se estivessem ensacados e cozendo em um caldeirão. Pedira para que Nefen Ackermann viesse vê-lo, e Jorg explicou o ocorrido para o homem.
 
– É uma rá-dardo-venenosa, Senhor – disse Nefen – os nativos esfregam a ponta de suas flechas nela para caçar. Seu veneno mata uma vaca. Não há nada que possamos fazer.
Abelardo recebeu as palavras com desgosto. Encolheu-se sobre o próprio corpo e começou a chorar. Uma boa parte dos homens estavam ali. Todos incrédulos ao ver o homem de ferro que os comandara ali, em posição fetal, aos prantos. Demorou muito até que parasse, pela falta de força mais que pela aceitação. Então, pediu papel e pena, e pôs-se a escrever. Chamou Jorg.
 
– Sim, General – disse o homem, respondendo ao chamado, e embalando o líder em seus braços – O que deseja?
– Desejo que lidere os homens.
– Cale-se! Cale-se e me deixe falar! Não vê que vou morrer daqui a pouco?
– Sim, senhor, me desculpe.
 
– É o meu substituto agora. Levará esta carta ao meu pai – disse Abelardo, entregando-lhe um envelope com um pequeno selo de uma mão fechada com o indicador esticado – E esta, para a princesa, Bella Kayser – entregou outro envelope – Vá para casa, e tome o posto de Herr juramentado à minha família. Você é como um irmão para mim, e eu direi ao Bom Ib que o ajude em seu caminho.
 
– Se Ib existir, meu senhor – retrucou Jorg, enquanto sentia o fio da vida esvaecer-se de seu General.
Jazia morto o Grande General Abelardo Bender, conquistador de tantas vitórias que nem o próprio podia lembrar. Os homens em volta calaram-se e baixaram suas cabeças; e o negro de suas túnicas nunca lhes fora tão representativo quanto no presente momento. Ackermann deixou caírem lágrimas em seu rosto bronzeado, e disse, em alto e bom som, para que todos em volta escutassem:
 
– Não há exceções. Vamos todos morrer aqui.
 
Autor: Delatorre