– Forlí, seja um bom garoto, e durma um pouco agora – disse Bohen, em um tom aveludado – descanse bem, já que amanhã será um longo dia.
 
– Mas tio, eu estou com medo. Eles não vão vir atrás de nós?
 
– Não, querido. Está tudo bem. Está tudo bem.
 
“Não está nada bem”, pensava Tarlí, ”e é graças ao próprio Bohen que temos que fugir daqui”. O lenhador estava tenso, sentado em um monte de neve, olhando para o chão. Não sabia o quê fazer. Um grupo de astrais os rastreava pelo bosque, agora mais furiosos que nunca. Bohen teria provavelmente matado um deles.
 
– Descanse você também, Tarlí. Vou fazer a primeira vigia – Bohen parou em pé, de costas para o amigo, para observar a mata. Não identificou nenhuma luz de lanterna ao longe. Era um bom sinal, já que astrais não conseguem ver sem ajuda de lanternas durante a noite.
 
Uma das espingardas estava repousada ao lado de Tarlí. Ele a pegou, e colocou uma bala em seu carregador. Puxou o ferrolho, peça que prepara o disparo em uma arma do tipo. Pôs a mão direita no gatilho e a esquerda na parte inferior do cano, onde ele não esquenta. Recostou a coronha no braço direito, levantou-se, apontou para Bohen e falou:
 
– Por que mentiu para mim?

– O quê? – Perguntou Bohen, logo antes de sentir a boca do cano em sua cabeça. A sensação gelou todo seu corpo, fazendo-o tremer, e suas pernas amolecerem – Espera Tarlí, como assim?! O quê aconteceu? 
 
– Você mentiu pra mim, Bohen. Disse que não tinha sido seguido durante sua fuga, e agora meu filho está no meio desse mato, correndo perigo. Eu confiei em você. Por quê? Por quê?!
 
– E-E-Eu não menti, Tarlí. Ninguém me seguiu, eu te juro! Eu juro; sério! Não faz isso! Por favor, por favor, por favor! – Bohen tinha a voz fraca, saindo seca da garganta, em um rígido desespero.
 
– Me conta a verdade, Bohen. Se você ainda tem um mínimo de consideração pela nossa amizade. Desde meninos, nós fomos amigos. Por que me traiu assim? É o meu filho que colocou em risco. Meu único filho! Ele é só uma criança!
 
– Por favor, Tarlí, pára! Eu juro que não menti! Você é como um irmão para mim! Eu não te prejudicaria assim! Muito menos Forlí! Eu amo o garoto como se fosse meu próprio filho!
 
– Cale a boca! – Tarlí não gritou, para não acordar o filho, mas tinha uma entonação de ódio reverberado em seu modo de falar; deixando uma clara intenção de matar no ar – Nunca mais fale assim do meu filho! Meu filho! Agora, seu desgraçado, é bom você se explicar, ou eu te mato aqui mesmo!
 
– Eu sabia do motim que ia acontecer, está bem? Então, eu fugi de madrugada, pela saída que o grupo rebelde criou para buscar armas. Os astrais estiveram ocupados por horas dizimando todo o acampamento. Eu tenho certeza que meu nome deve estar na lista de baixas deles. Por favor, Tarlí, eu juro que estou falando a verdade.
 
– Eu te considerava um irmão, sabia? Eu não esperava isso de ti. Trazendo-os para cá, sabendo que eu e Forlí não conseguiríamos fugir. Só para você ganhar tempo. Morra!
 
Tarlí baixou a espingarda e pegou no cabo da faca em sua cintura. Um tiro faria muito barulho, mas alguns bons cortes, não. No exato momento em que a arma saiu de sua cabeça, Bohen virou-se para atacar seu até então amigo; porém, só teve tempo de mostrar o peito para o gume de ferro de um facão, que lhe abriu quatro rombos metálicos por entre as costelas, rasgando-lhe os pulmões, e derramando tanto sangue quanto tinha seu corpo.
 
O amigo pendeu para o seu lado, e Tarlí o empurrou com o cabo da faca. O corpo foi ao chão, enlameando toda a neve à sua volta com seu vermelho ferroso. Tarlí tinha sua mão direita, barriga e canelas empapadas neste mesmo líquido, que ainda fervia vitalidade. Fresco, recém tirado de um ser vivo que encerrara ali.
 
O vento gelado vinha do leste, balançando as copas das árvores, que sussurravam uma agrura pela morte. Tarlí suspendeu o corpo em seu ombro direito, sendo embebido pelo sangue que ainda escorria. Carregou a carne sem vida por meio quilômetro ao norte, e a jogou em qualquer buraco no terreno. Depois, tingido em vermelho, voltou para a fogueira. Atirou as roupas ao fogo, e pegou peças limpas em sua sacola.
 
Ele se sentou perto do filho, e lhe fez um cafuné em seus belos cabelos. Uma criança tão bela. Enquanto vivesse, ninguém faria mal ao pequeno. Tarlí acabou apagando ao lado do garoto.
 
Pela manhã, os dois conversaram:
 
– Papai, por que o Hanrí não veio com a gente? – Perguntou Forlí, ainda meio sonolento. Seus meigos olhinhos ainda estavam inchados, e sua voz era fraca e aveludada.
 
– Ele quis ir para a floresta. Agora ele é livre, como você queria filho – Tarlí estava preparando um mingau no fogo. A comida era suficiente apenas para o menino.
 
– Mas você me falou que ele não ia conseguir ser livre.
 
– Sim, disse. Parece que Hanrí é um dos poucos que conseguiu.
 
– Estou com fome.
 
– Eu te fiz um mingau. Coma.
 
– Mas e você, papai? Não vai comer?
 
– Não estou com fome agora. Apenas coma, temos que partir em breve.
 
Tarlí tinha um plano. Caminharia para o leste, até chegar ao litoral. Havia uma grande cadeia de montanhas por lá, e ele se lembrava da existência de várias cavernas na região. Ali, nunca seriam achados.
 
O clima estava bom. Não cairia neve por uma semana. Se carregasse o filho nas costas, chegariam lá em uma semana. Era o mais certo a se fazer. Sua esposa concordaria. A segurança de Forlí era e sempre foi prioridade. Tarlí nunca poderia se esquecer disso.
 
– Papai? – Disse o pequeno Forlí.
 
– Sim, meu filho.
 
– Cadê o titio Bohen?
– Foi embora. Pra sempre.