– Está tudo muito calmo – disse Tarlí. Olhava para todos os latos da mata, preocupadíssimo – Forlí deite no chão. Não se mova por nada nesse mundo.
 
– Sim papai – o garoto se jogou em um monte de neve imediatamente. Estava pálido, e tinha um ar de cansaço em seu semblante.
 
O vento não soprava naquele dia. Não havia quase nenhum animal naquela região. As árvores não eram frutíferas. As copas eram muito altas. Mesmo assim, um som de galhos no chão quebrando-se veio da direção noroeste. Foi então que Tarlí percebeu.
 
– Estamos sendo seguidos – ele murmurou, colocando a mão direita na cabeça do filho.
 
– São os monstros? São eles, papai? Eu to com medo! – choramingou Forlí, encolhendo-se sobre seus joelhos.
 
– Não, não são os monstros, meus filhos, acalme-se – ele olhou em volta novamente, enquanto carregava sua espingarda. Focou a visão em um arbusto, onde viu por entre as folhas um tufo de cabelo – São outros iguais a nós, Forlí.
 
– O quê? Oba, eles podem nos ajudar! Vamos dar oi! – o menino tentou levantar-se, mas foi parado pela mão do pai, que o empurrou no peito, fazendo com que se deitasse de novo.
 
– Não é porque são da nossa espécie, que não possam ser perigosos. Segure essa faca, e esteja preparado – Tarlí entregou seu punhal para o filho. Não era sem motivo algum. Já não comia fazia três dias. Não conseguiria manusear a arma. Caso fosse mais de um racional, ele não daria conta. Saber disso o fazia estremecer de ódio, tristeza, angústia. Essa era a rude sensação de impotência.

Outra vez, alguns galhos quebraram na mesma direção. Os olhos de Tarlí foram rápidos o suficiente para ver um vulto pular de um arbusto para outro, onde ele mirou sua espingarda e efetuou um disparo. O recuo do equipamento fez com que seu fatigado corpo fosse empurrado para trás. Caiu no chão, como se já não fosse nada para o mundo.
 
Ouviu um urro de dor, e logo após uma voz masculina gritar um “Peguem ele!” repetidas vezes. Virou sua cabeça para Forlí. O menininho chorava, e soluçava, em desespero. Não podia deixar seu filho; seu único filho, desprotegido. “Pelo garoto”, pensou. “Pelo garoto”.
 
Tarlí pegou a faca das mãos do filho e o encostou no tronco de uma árvore. Virou-se, e viu três homens armados com toras de madeira. Tentou se levantar, mas não havia mais nenhuma força em suas magras pernas. “Pelo garoto!”, pensava consigo mesmo. “Pelo garoto, vamos!”. Firmou o pé esquerdo no chão, enquanto seu joelho direito dava apoio. Passou a faca para mão esquerda, e a estendeu para frente.
 
Quando o primeiro racional chegou perto dele, Tarlí soltou um grito, que mais pareceu um rugido, tamanha era sua vontade de lutar:
 
– Não encostarão um dedo no meu filho!
 
Ele se jogou em um movimento de corte para cima da ameaça, mas o adulto apenas afastou-se um pouco e deu-lhe uma porretada na cabeça. Sentiu o sangue descer por trás de sua orelha direita. “Pelo garoto…” Então desmaiou.
 
Quando acordou, todo o seu crânio doía. Sua visão estava fraca, mas podia identificar as nuvens do céu da tarde. Aos poucos, recobrou a consciência completamente. Então, levantou-se num pulo, e a tontura quase que o derrubou. Estava em uma espécie de acampamento improvisado, com três barracas médias, e uma fogueira ao centro.
 
Logo, pode ver seu filho perto do fogo, e correu para abraçá-lo.
 
– Forlí! Oh, meu filho! Você está bem? Fizeram algo contigo?
 
– Estou bem, papai! Um moço te bateu, mas ele e os amigos dele são bonzinhos. A moça cuidou do seu dodói na cabeça, e me deu um doce.
 
Tarlí olhou á sua volta novamente, e identificou seis racionais. Quatro caras e duas donzelas. Não pareciam agressivos. Mesmo assim, não baixou sua guarda. Não podia confiar em ninguém. Nunca mais.
 
– Então, o quê vocês querem da gente? – disse Tarlí, sem desgrudar do filho.
 
– Nada. Desculpe o meu amigo, pela pancada. É que você parecia perigoso. Mas eu entendo que estava defendendo seu filho. Chamo-me Harlíc Petrovitch.
 
Harlíc não era muito alto, tinha uma aparência de ser velho; sua barba era negra e cumprida, com um aspecto sujo, e seus cabelos eram escondidos por um gorro. Tinha olhos que brilhavam como verdes safiras. Ele estava parado em frente à Tarlí, do outro lado da fogueira.
 
– Meu nome é Tarlí.
 
– Tarlí de quê?
 
– Tarlí Brommchowich. 
 
– Belo sobrenome. Significa “Flor Lilás”, sabia?
 
– Sim, sabia. O quê você quer de mim e do meu filho?
 
– Já disse, não quero nada.
 
– Então por que nos capturou?
 
– Não capturei ninguém. Meu amigo, Morian, te derrubou com uma paulada. Mandei que os camaradas Lovitch e Korruen o trouxessem para que minhas primas, Luvia e Vilda, cuidassem do ferimento. Eu cuidei do menino enquanto esteve apagado. Ele é um doce de criança. Muito amável. Vejo que é um bom pai.
 
– O melhor! – falou Forlí – Já te disse que ele é o melhor!
 
– Sim, Forlí – Harlíc deu um sorriso – Ele é o melhor. E deve estar com fome! Lovitch! Traga uma lata de comida para o bom Tarlí!
 
Lovitch era alto e forte, assim como Tarlí. Tinha olhos vermelho-brilhantes, e sobrancelhas pesadíssimas os castigavam; sua boca era pequena e o nariz, estranhamente pontudo. Sua pele rosada era cheia de manchinhas, com certeza de excesso de exposição ao sol, em algum campo de trabalho forçado.
 
Tarlí comeu a carne enlatada como um animal selvagem come uma caça. Enquanto saciava sua terrível fome, era observado por aqueles estranhos, todos calados. Quando terminou, Harlíc disse:
 
– Então, Tarlí, de onde está vindo?
 
– Da minha cabana, a oeste. Foi encontrada por um grupo de caçadores astrais.
 
– Droga, me desculpe. É nossa culpa. Não queríamos te causar problemas.
 
– Como assim?
 
– Esse grupo, eles estão atrás de nós. Por isso Morian te bateu. Não sabíamos se estava sendo usado por eles. O esquadrão do Tenente Dyke já nos persegue há dias. Ele não vai descansar enquanto não nos achar.
Naquele exato momento, Tarlí ficou perplexo. O astral que invadiu sua casa na verdade estava procurando por estas pessoas. Os caçadores não estavam no encalço de algum fugitivo da rebelião de Jonen. Um simples pensamento doeu em seu coração, maltratou sua alma. Bohen morreu em vão. Graças à sua desconfiança imbecil, suas mãos estavam sujas do sangue de seu melhor amigo, que o acompanhou desde a infância. Graças à sua paranóia, aquele que o tinha como irmão, que sempre o ajudou e apoiou fora brutalmente assassinado, e jogado em uma vala qualquer, para que apodreça a céu aberto.