– Deer Got, tãkere of ma femili, enal ma frends. Don Lethem fau in de hens of de enemi. Ai plise to iu, uifal feif ai hev – disse Harlíc, com seus olhos fechados, enquanto seu rosto e mãos apontavam para o céu – Tenks for reer me.
 
– O quê ele está fazendo? – cochichou Forlí para Vilda.
 
– Orando. Está pedindo à Deusa para que nos proteja em nosso caminho.
 
Vilda era uma mulher baixa e magra. Tinha olhos verdes vívidos que refletiam qualquer raio de luz que os tocassem. Seu rosto era arredondado, leve e macio. Tinha uma pele acinzentada, bronzeada pelo sol. Seus cabelos eram longos, negros e lisos.
 
– Sério que ele ainda faz isso?
 
– Não existem tempos ruins para se seguir o caminho certo, Tarlí – disse Harlíc, aproximando-se da dupla – minha crença estar presente na minha vida ou não, por acaso mudaria o que aconteceu nesses últimos anos?
 
– Não. – respondeu Tarlí – Acho que não.
 
– Isso mesmo. Isto aconteceria de qualquer forma. É o juízo final. E por muito tempo, eu fui um pecador. E por isso, Ela não me escolheu para ser um dos arrebatados.
 
– Fala dos abduzidos?
 
– Você não é um racional de fé, Tarlí. É bom, mas não tem a unção divina no coração. Por isso, sofre as penitências desses anos.
 
– Então, eu estou sofrendo por não ser religioso? Mas, você também está aqui comigo, carregando o mesmo fardo que eu.

– Também é inteligente, por sinal. Até meus vinte anos, fiz muitas escolhas erradas em minha vida. Andei muito tempo pelo mau caminho. Era um delinqüente juvenil. Depois, descobri a fé que vivia dentro de mim, e meu espírito foi ungido pelas límpidas águas de minha grande Deusa, Adi. Mas, por ter cometido muitos pecados, cá estou, lavando minha alma, sendo caçado por estes demônios que chamamos de astrais. Quando eu morrer, irei para junto Dela, pois terei pagado minhas penitências aqui, em terra.
 
– Não acha estranho o fato que os astrais, que você considera demônios, falem a mesma língua dos enviados da tua Deusa?
 
– Não, amigo Tarlí. Deixe-me te explicar. No começo do mundo, Adi vivia soberana sobre tudo e todos; única e poderosa. Tudo obedecia á vontade dela. Todos os enviados existiam apenas para servir aos propósitos Dela. Mas, um deles, Oni, não queria resumir-se a seguir ordens. Ele era o enviado mais poderoso e influente, muitos ouviam suas palavras. Seu grupo rebelou-se contra Adi, e até os dias de hoje, ainda luta para tentar tomar seu poder.
 
– Pensava que Adi tinha banido Oni para os confins do universo.
 
– Adi e Oni são igualmente poderosos. Mas apenas Adi é boa. Ela não tem ganância nem inveja em suas ações. Apenas o bem maior.
 
– Me desculpe Harlíc, mas não consigo acreditar na sua religião.
 
– Quanto a isso, não posso fazer nada. O aviso já foi dado.
 
O grupo seguiu para o leste, que era a rota original de Tarlí. Fugiam do grupo de caçadores. O pai de Forlí sabia que tinha mais chances de salvar o filho permanecendo com este pessoal. Caso os astrais os achassem, Harlíc e os amigos serviriam como isca para sua fuga.
 
Prosseguiram por dois dias, sem que nada acontecesse. Morian ficava de vigia durante as noites. Era alto e forte, tinha braços grossos e rudes. Seu abdômen tinha um leve acumulo de gordura. Seu rosto era quadrado; sua boca era curvada para baixo, dando-lhe um visual carrancudo. Seus olhos eram cinza-brilhantes.
 
Na manhã do terceiro dia, Tarlí voltou a conversar com Vilda:
 
– Seu primo Harlíc ora todas as manhãs?
 
– Sim – ela respondeu – Ele é muito religioso. Agradeço que não tenha batido de frente com o velho nesses assuntos. Harlíc fica muito bravo quando tentam rebater suas crenças.
 
– De modo algum. Eu respeito às opiniões alheias, mesmo quando não concordo. Mas, e você, Vilda, é igual a ele?
 
– Como assim igual a ele?
 
– Você é uma bléssêe?
 
– Não. Eu também não acredito em Adi. Nem em Oni. Para mim, todos os deuses são na verdade astrais que visitaram nossa espécie no passado. E nós os adoramos durante milênios, por eles serem tão avançados, e tão superiores tecnologicamente.
 
Tarlí nunca tinha visto uma adulta tão inteligente. Afinal, elas geralmente não estudavam, pois tinham de cuidar da casa enquanto seus maridos trabalhavam. Mas, como antes da invasão, o mundo passava por uma época de inúmeras revoluções econômicas, políticas e sociais; não estava surpreso. De fato, já tinha até ouvido falar sobre um movimento de igualdade entre os sexos.
 
– Sabe que a igreja tinha uma enorme influência em nossas vidas, não é, Tarlí? – perguntou Vilda, olhando profundamente no brilho de seus olhos.
 
– Sim, sei. Líderes religiosos sempre ditaram regras de comportamento para seus seguidores. E eu acho que isso continuará para todo o sempre, mesmo com a presença dos astrais.
 
– Não gosta de religião?
 
– Nem um pouco. É totalmente errado, em tempos como estes, colocar o misticismo à frente da ciência. Os avanços que vivenciamos nas últimas duas décadas provam que não há nada que não possamos fazer. Se nos empenharmos nos estudos, podemos até mesmo chegar ao nível dos astrais.
 
– Concordo contigo. Mas, nas últimas duas décadas, quem financiou as pesquisas científicas foi a própria igreja. Eles patrocinaram pesquisadores tentando provar suas próprias teorias. E agora lutam arduamente contra todo o conhecimento produzido com o dinheiro deles.
 
– Mas não foi só com dinheiro da igreja. Outras instituições também contribuíram para o avanço de nossa espécie. Os próprios governos fizeram muito esforço para melhorar suas tecnologias. Mas se todos os países tivessem trabalhado juntos, ao invés de pensar apenas em si, teríamos evoluído muito mais. Teríamos até mesmo dado combate aos invasores. Não tivemos nem esboço de reação contra o domínio alienígena. Graças ao seu individualismo, todos os governos foram ao chão perante o poder dos astrais.
 
– Entendo seu ponto de vista. Você é realmente muito legal. Mas, parece que tem certa obsessão pelos astrais. Não consegue se desviar deles.
 
– Não diga isso nem brincando. Eu os odeio. Quero que morram todos. Como os odeio. Não consigo entendê-los, por mais que eu tente. Até aprendi sua língua, mas descobri tão pouco sobre sua raça.
 
– Viu? Você é obcecado por eles.
 
Mal Vilda terminou de falar, um forte e seco estampido de bomba ecoou do meio do acampamento até os ouvidos de cada um dos presentes, produzindo um sonido ensurdecedor. Este foi seguido de um clarão duas vezes mais intenso que a luz das lanternas astrais. Vindo da fogueira, fez Tarlí virar seu rosto. Forlí estava perto do local da explosão, e em um berro, começou a chorar de uma maneira tão sentida quanto uma criança ferida; aos gritos e suspiros.
 
– Estou cego! Estou ceeeego! – gritou Korruen. Tinha olhado diretamente para o clarão.
 
Morian se levantou e deu um tiro de espingarda para o lado norte, entre as árvores. Lovitch, de cócoras, disparou no mesmo local. Morian então gritou:
 
– Os caçadores!