– Os caçadores! – Morian deu outro tiro.
 
O grito fez com que o sangue de Tarlí fervesse. Ele se levantou num salto, e correu em disparada na direção de seu filho, que gritava de dor. Colocou o menino no ombro, e começou a correr o mais rápido que podia. Antes de se embrenhar no mato, pôde ouvir os gritos do resto do grupo:
 
– Droga! Corram! – gritava Lovitch.
 
– Meus olhos! – esganiçava Korruen.
 
– Por favor, não! – implorava Luvia.
 
Tarlí aumentou sua velocidade. Corria cada vez mais rápido, apertando o filho em seus braços. Forlí chorava muito, e grunhia de dor. O pai podia sentir o sangue do menino molhar seu peito. Era uma das sensações mais desesperadoras já sentidas em sua vida.
 
Logo, ouviu atrás de si o elevado sonido do roncar de um motor, vindo na sua direção. Era alto, grave e turbulento. Tarlí tinha certeza de que era algum veículo astral, mas nem sequer pensou em olhar para trás. Correu na direção de uma árvore, e pouco antes de chegar nela, virou para a direita, sem diminuir sua velocidade. Após alguns metros, escutou atrás de si o fortíssimo estrondo de uma grande massa sólida se chocando com o tronco. Logo após, ouviu o grito de um astral vindo do mesmo local. O rugido do monstro fez Forlí estremecer nos braços do pai e engolir o choro. Tarlí continuou correndo.
 
Após alguns segundos, Tarlí viu três lanternas surgirem na sua frente, o deixando cego momentaneamente. Não pensou duas vezes e virou para a esquerda. Continuou correndo, e viu na sua frente Vilda e Harlíc.
 
Vilda puxava o primo pelo braço. Lovitch saiu do meio de um arbusto, e pegou os dois nos ombros, então saiu correndo feito um desesperado. Tarlí emparelhou com ele, e perguntou:
 
– O que faremos agora?
– Apenas corra! – disse Lovitch.
 
Os dois correram por cinco minutos. Até que todos os seus músculos estivessem, doloridos, cansados, ardendo em dor. Logo, Lovitch parou, e colocou Harlíc e Vilda no chão.
 
– Eu não posso mais continuar. – disse Lovitch em um tom fraco e ofegante.
 
– O quê? Vamos, temos que continuar! – disse Tarlí.
 
– Precisamos ir! Vamos! – disse Vilda.
 
– Você não precisa nos carregar mais. – disse Harlíc.
 
– Apenas vão. Eu vou comprar tempo pra vocês – Lovitch carregou sua espingarda – Com sorte, eu mato dois desses seres imundos. Tarlí continue sendo esse ótimo pai para seu filho.
 
Esta frase fez Tarlí se lembrar do filho, que estava ferido em seus braços. Ele colocou o menino em um monte de neve, delicadamente. Forlí deu um leve gemido de dor ao deitar-se. Então, o pai olhou para ele, e ficou horrorizado.
 
Forlí tinha sete estilhaços de bomba, espalhados em ambos os braços.
 
No braço esquerdo, quatro fragmentos penetraram a parte lateral e frontal abaixo do cotovelo. Apenas os buracos na carne eram visíveis, os causadores deles escondiam-se em baixo da pele. No braço direito, três estilhaços alojaram-se perigosamente perto do pulso, deixando suas salientes pontas à mostra.
 
Seus olhos se encheram de lágrimas. A sua preciosa criança, que ele pegou nos braços quando nasceu, criou e educou com tanto amor e carinho, um pedaço vivo de seu amor e união com a falecida esposa; estava toda ensangüentada e ferida nos braços, com uma forte expressão de tristeza nos seus delicados olhinhos alaranjados. Aquilo doeu muito em Tarlí. Não em seu corpo, mas em sua alma. Uma dor ácida, corrosiva. O pai aflito olhou para o céu, juntou todas as suas forças, e gritou:
 
– Seus maníacos! – o berro ensurdecedor podia ser ouvido a mais de um quilômetro de distância – Seus maníacos!
 
Após um minuto, foi possível ver a luz de cinco lanternas a seiscentos metros de distância do grupo. Harlíc e Vilda tiveram que puxar Tarlí para ir embora. Ele pegou o filho nos braços, e correu junto com os dois. Passado um tempo correndo, eles puderam escutar cinco tiros de espingarda. Lovitch estava morto.
 
Eles passaram alguns minutos correndo. Em certo ponto da mata, já ao pé de uma montanha, Harlíc gritou:
 
– Olhem uma caverna, vamos para lá!
 
Ao pé de uma árvore havia um buraco, com uma abertura de metro e meio, muito escuro. Harlíc e Vilda, que estavam mais à frente, meteram-se por ele. Pouco antes de Tarlí alcançá-lo, ele bateu em uma massa branca que apareceu do nada em sua frente. Caiu no chão, derrubando o filho para o lado. O menino rolou para baixo de um arbusto.
 
Tarlí olhou para o quê tinha o derrubado, e levou um imenso susto. Era um astral. O ser tinha a altura padrão de sua espécie, de três a quatro palmos mais alto que um racional. Trajava um macacão branco, com uma enorme mochila cilíndrica nas costas, e um gigante capacete redondo com um vidro opaco na frente. O ser tirou seu capacete. Tarlí se impressionou, pois nenhum astral tirava o capacete longe de suas bases.
 
O astral era branco num tom opaco, gordo e bochechudo. Tinha cabelos lisos, escorridos e castanhos, que escondiam a metade esquerda de sua testa. Sua barba era cheia e volumosa, delineada abaixo das bochechas, com um bigode fino. Sua boca era pequena. Seu nariz, levemente largo. Os olhos eram pequenos e castanho-escuros. Suas orelhas eram escondidas pelo cabelo. Usava óculos de armação leve e fina.
 
– Quem é você? – Perguntou Tarlí.
 
– Eu sou o Tenente Dyke, kepleriano. – disse o astral. Sem o capacete, a voz deles costuma soar bastante normal, e não como a de um monstro.
 
O ser não tinha notado Forlí. Tarlí, percebendo isso, correu para o buraco. O Tenente tentou pegá-lo, mas não foi rápido o suficiente. O pai escorregou por entre a abertura. A caverna, por dentro, era bem grande e espaçosa. Podia ver Harlíc e Vilda vinte metros à sua frente. Mas, quando olhou para trás, se desesperou.
 
O Tenente tinha Forlí em seu colo. Ele colocou o capacete, e foi até uma árvore próxima dele. Saiu de lá montado em um veículo pequeno e sem rodas, que deslizava pela neve. Ele acelerou, e foi embora, levando o filho de Tarlí consigo.
 
Forlí foi capturado.