kepler 8

– Não! – Tarlí pulou para fora da caverna o mais rápido que pode, e passou a correr atrás do veículo.

Ele correu por algum tempo, até que o veículo astral se distanciou demais para ser alcançado. Neste momento, Tarlí foi ao chão, e desatou a chorar.


– Forlí! Forlí! Não, meu filho! Não! Por que não eu? Por quê?! – murmurava entre uma lágrima e outra, em uma desconfortável tristeza que só um pai poderia entender.
Por alguns minutos, chorou sozinho, jogado na neve. Sem forças para mexer um músculo sequer. Tinha lutado por tanto tempo, para perder agora, de uma maneira tão estúpida. Não podia se perdoar pelo erro. Pensara que o astral não tinha visto seu filho. Ledo engano. Agora, Tenente Dyke tinha sua criança capturada, como se fosse um animal selvagem. Selvagens. É como os astrais consideram os racionais. Selvagens.

– Tarlí. Não pode ficar aqui, em espaço aberto. Venha, vamos nos esconder naquela caverna – disse Harlíc, colocando a mão no ombro do lenhador.
– Me deixe! – Tarlí empurrou o velho, que foi ao chão.

– Tarlí! – gritou Vilda. Em seu rosto já não havia traços de esperança.

– O que é? – Perguntou Tarlí, de uma maneira rude.

O vento soprava forte. Uma nova tempestade de neve estava se aproximando.

– Seu filho foi levado, eu sei – disse Vilda, amenizando sua voz, tentando evitar a ira do pai aflito – Mas, morto de frio, você não vai servir de nada para ajudá-lo. Venha e me dê sua mão.

Ela tinha razão. O frio que fazia nos bosques poderia facilmente matar até mesmo um astral, com toda sua proteção. Que diria de um pequeno racional como ele. Tarlí se levantou e foi para a caverna, ignorando o casal de primos. Sua dor era forte, mas seu filho precisava de toda sua força agora.

Harlíc acendeu uma fogueira com alguns galhos e folhas secas e uma pederneira que tinha em seu bolso. Vilda esquentou duas latas de comida, trazida na mochila de Tarlí. O pai aflito comeu uma lata sozinho, enquanto os primos dividiram a outra. Após a quase que intragável refeição, Harlíc, amedrontado, pôs-se a falar:

– O quê você fará agora, Tarlí?

– Eu… Eu não sei.

– Sugiro tentarmos subir a montanha – disse Vilda – Eles já nos cercaram por todos os outros lados. É nossa única chance. A última rota de fuga.

– Não vou deixar meu filho aqui – respondeu Tarlí – Eu vou enfrentar-los.

– Por tudo que é sagrado, Tarlí. Não faça isso – disse Harlíc – Não lute contra eles. É a pior decisão a se tomar. Matariam-te antes que pudesse encostar-se a um deles.

– A missão deles não é de captura? – perguntou Tarlí.

– Até alguém reagir – respondeu Vilda. Os rapazes atiraram contra eles, por isso já devem estar mortos. E minha irmã também. Pobre garota. Como eles capturaram Forlí, isso mostra que o comandante da missão deve estar de boa vontade. Pode ser que aceite uma rendição.

– Ótimo – disse Tarlí.

– Mas esta não é a resposta, Tarlí – disse Vilda – Não é a escolha certa.

– É sim. Tenho que proteger meu filho.

– E como o protegerá preso?

Tarlí respirou fundo. Pensou bem. Seria difícil fugir outra vez de uma prisão astral. Mas ele já tinha feito uma vez, e ainda carregando um bebê. Já entrar em uma, resgatar o filho sabe-se lá em que lugar ele estiver, e sair, era impossível.

– Não protegerei. – disse Tarlí. Já era tarde para tentar proteger Forlí. Devia simplesmente focar sua energia em um plano de fuga.

– Tem certeza disso, meu amigo? – disse Harlíc – Ambos sabemos como é ruim estar do lado de dentro das cercas. Como é ser privado de sua liberdade.

– Sim. Sabemos. E é por conhecer tão bem esta amargura, que não posso deixar meu filho ir para lá sozinho. Sem ninguém em quem confiar.

– Ninguém é confiável, Tarlí – disse Harlíc – Não sei se lembra, mas da primeira vez que viu os rapazes, tentou matá-los.

– Como assim? Eu sou o pai dele! Não fale mais besteiras, seu velho! Estou indo.

Tarlí levantou-se e saiu andando, deixando sua mochila para trás. Deixou a caverna levando apenas a roupa do corpo. Embrenhou-se no mato, seguindo em frente, sem olhar para os lados.

Sua respiração estava pesada. Cada músculo de seu corpo contraia-se involuntariamente. Era medo o quê sentia. Já tinha os visto inúmeras vezes. Mas cada vez que observava um astral era uma experiência unicamente assustadora.

Finalmente pode ver. Ao longe, um veículo astral. Uma enorme carroça retangular e branca, com rodas de borracha, puxada por uma cabine de ferro, que tinha um motor dentro, e rodas embaixo.

Ele se aproximou, e quase caiu no chão de medo. Próximos a carroça, havia cinco astrais, com seus trajes brancos gigantes, mochilas enormes, usando seus capacetes de vidro. Carregavam nas mãos enluvadas enormes mosquetes de aço, com formas e peças jamais pensadas por nenhum racional.

O medo tentou tomá-lo, mas seu amor pelo filho era mais forte. Logo, de dentro da cabine, saiu o Tenente Dyke. Ele deu alguns imponentes passos na direção de Tarlí, e falou:

– É muita coragem vir até aqui, kepleriano. Como é seu nome?

– Tar… Tar… Tar… Tarlí. – sua voz quase se extinguiu tamanho era o medo que sentia do Tenente.

– Pois bem… Tarlí – disse Dyke – O que quer vindo até aqui?

– Ren… Ren… Rendo-me.

– Pois bem, Tarlí. Se for o que quer.

O Tenente chegou perto de Tarlí, e o acertou na cabeça com um objeto de ferro. Tarlí desmaiou.