kepler
– O paciente está acordando – disse uma voz feminina. Era leve, doce, suave, fina. Seu timbre agudo agradava os ouvidos.
Tarlí abriu seus olhos. Sua visão estava um pouco embaçada, mas ele podia perceber que estava em uma maca. Olhou o ambiente à sua volta. Muitas estantes e prateleiras, cheias de remédios, e um birô no canto. Estava em um consultório. Tudo dentro dele levava a cor branca. 
 
Havia uma astral parada na sua frente, sentada em uma cadeira. Certamente a médica que o estava examinando. Ela era baixa para sua espécie, e usava um sobretudo branco, que escondia a forma de seu corpo. Tinha luvas brancas de borracha cobrindo suas mãos. Em seu rosto estava uma máscara branca, que se prendia em suas orelhas, e cobria do queixo até pouco acima da metade de seu nariz. Usava óculos, e seus olhos eram de certa forma marcantes. Suas pupilas, negras e opacas. Tinham um formato diferente, sendo redondos em sua parte externa, e iam afunilando-se até chegar à parte interna, tornando-se pontudos perto do nariz. Seu cabelo era tão preto quanto à escuridão da noite, com duas mechas escorrendo do topo de sua testa pelos lados de seu rosto até a metade de seu pescoço, e caía também por sobre seus ombros e costas, até abaixo da omoplata. Sua pele era bege, num tom queimado.

– Você pode me ouvir? – perguntou a astral.
 
– Sim, sim. – respondeu Tarlí – Posso sim.
 
– Ótimo. Não se mexa ok? – ela deslizou as rodinhas de sua cadeira até o birô, e pegou um pequeno aparelho, quadrado e menor que sua mão. Apertou um botão nele, voltou a falar – Diário de campo número trezentos e cinqüenta e seis. Dia dezoito de agosto de dois mil quatrocentos e trinta e dois. Nove horas e trinta e cinco minutos no horário kepleriano. Iniciando a consulta com o paciente quarenta e dois do mês. Informações do indivíduo: sexo masculino, sangue zeta positivo, noventa quilos referentes à gravitação nativa, um metro e sessenta e dois centímetros de altura. Chegou desmaiado devido a uma concussão na cabeça, causada por uma pancada. Acabou de acordar.
 
Ela retirou uma lanterna de um bolso em seu sobretudo branco, e a ligou. Tarlí estranhou a baixa potência da luz. Em seguida, a astral balançou a ponta luminosa do equipamento bem em frente aos olhos dele.
 
– Seus reflexos estão ok. Paciente, você lembra seu nome?
 
– Sim. Lembro. É Tarlí. Tarlí Brommchowich.
 
– Olá, Tarlí. Eu sou a Doutora Beatriz Imperatore Delacampanile. Chefe desta seção do Departamento De Pesquisas Médicas e Biológicas Em Kepler. Você está no Complexo De Extração Mineral De Alphaville-3. Sua espécie chama essa cidade de Neuen Grau.
 
– Neuen Grau? Odeio essa cidade. Enorme, mas tão… Suja.
 
– Tarlí, preciso tirar uma nova amostra de seu sangue, e logo após as amostras de pele, saliva, cabelo e unhas. Enquanto isso me explique melhor por que não gosta daqui. Tem tantos prédios e lugares bonitos.
 
– Bom, Neuen Grau é de fato bem urbanizada, e tem vários pontos turísticos, incluindo importantes marcos históricos da civilização em geral. – a astral espetou seu braço com uma agulha – Ai!
 
– Desculpe. Desculpe. Mas tinha de colocá-la.
 
A agulha estava acoplada a uma seringa, cujo cilindro preencheu com o vermelho sangue de Tarlí quando a Doutora puxou o êmbolo em sua extremidade. Em seguida, Beatriz colocou o instrumento em cima de uma mesinha de instrumentos, que estava ao lado da cama.
 
– Continue falando. – disse a Doutora.
 
– Enfim, por mais que seja grande e importante, ela é cheia de fábricas e casas de fundição. Lotada delas. Por isso, o ar aqui é poluído, pesado. As moradias se enchem de fuligem, assim como as ruas, as roupas, e os pulmões dos que aqui respiram. – Beatriz cortou um tufo de cabelo de Tarlí – Digo, respiravam.
 
– O quê? Como assim? Tem muita gente aqui ainda, Tarlí. – ela pegou um cotonete e passou nas gengivas do seu paciente.
 
– Ora, de quê adianta agora a minha opinião sobre esta cidade. De quê adianta eu sequer tê-la? – Beatriz pegou um bisturi, e fez uma leve raspagem na pele do braço de Tarlí – Depois da chegada dos astrais, nossa civilização ruiu. Tudo que um dia conheci, jamais será igual.
 
– Bom, acho que você deveria se abrir para o mundo. Viver o novo. Vou analisar essa sua amostra de pele – Beatriz foi até um aparelho que muito se assemelhava com uma luneta presa em uma estrutura metálica.
 
Tarlí se sentiu ofendido com a resposta da Doutora. Seu planeta foi invadido, sua casa e cidade destruídas; seus familiares foram mortos ou escravizados; seus amigos sofreram tanto quanto ele; e outras tantas coisas horríveis que haviam acontecido. Seu pobre filho havia sido capturado por um astral. E ele ainda tinha de ouvir isso. Era revoltante.
 
Frustrado com sua situação, Tarlí sentou-se na cama. Ele observou Beatriz de costas. Prostrada em sua análise. Certamente era um ser frágil. Poderia esmagar seu crânio com uma mão só. Mas, ela fora tão gentil para com o triste pai. Então, limitou-se a falar:
 
– Já teve seu planeta invadido, Doutora?
 
– Tarlí – respondeu Beatriz em um tom calmíssimo – Meu país foi destruído por um tipo de arma que você nunca verá na sua vida. Pessoas de um país vizinho jogaram no local que nasci e cresci um tipo de bomba que mata e pulveriza tudo o que sua explosão toca. E ainda, torna o local inabitável por décadas.
 
– E? – perguntou Tarlí, com rispidez.
 
– Hoje, tenho que trabalhar para os responsáveis por isso. Não posso sequer me atrever a reclamar.
 
– Ah. Entendo. Desculpe-me.
 
A doutora afastou-se do seu equipamento, observou Tarlí por um momento, e então disse em seu pequeno aparelho gravador.
 
– O paciente tem uma forte contaminação de keplobacilos cutâneos. Direcioná-lo-ei para a descontaminação.
 
– Contaminação de quê? – perguntou Tarlí, intrigado – Doutora?
 
– Keplobacilos cutâneos. É uma bactéria presente no seu planeta. Aloja-se na pele dos seres da tua espécie, alimentando-se de tecido morto. Ela não é prejudicial à saúde dos keplerianos, sendo até importante na manutenção epitelial. Mas, nos da minha espécie… – a doutora fez uma dramática pausa em sua fala, parecendo ter se lembrado de algo muito desagradável – este microorganismo se alimenta de todo e qualquer tecido cutâneo. Sendo ele pele morta ou não. Cria úlceras severas em todo o corpo do infectado. Literalmente, deixa o doente sem pele nos locais em que se prolifera. Você já viu alguém ficar em carne viva, Tarlí?
 
– Não.
 
– Então não queira que esta merda se espalhe pra fora do meu laboratório.
 
– Certo – ele admirou os negros olhos de Beatriz. Estava impressionado com ela. Aquela astral conseguira algo impossível. Despertar o encanto de Tarlí.
 
– Tarlí. Antes de te mandar para a descontaminação, posso te fazer uma última pergunta?
 
– Claro que pode. O quê quiser; doutora Beatriz.
 
– Como sua espécie chama este continente? Sempre quis saber.
 
– Veröld.
 
Continua…