KEPLER 10
– Está muito fria! – gritou Tarlí.
 
A água gelada e turva de produtos higienizadores jorrava com enorme pressão por cada um dos pequenos tubos, localizados nas paredes daquele cubículo. Tarlí se encontrava no centro do local, completamente despido, com os braços esticados rentes aos seus ombros, e suas pernas abertas em um ângulo de quarenta e cinco graus.
 
– Pronto, Tarlí, você já pode sair – a voz de Beatriz se fez ouvir dentro do cubículo fechado, ao tempo que a água parou de fluir.
 
Tarlí colocou as roupas que estavam em cima da maca, enquanto Beatriz terminava de preencher uma ficha. As vestes eram um uniforme, caracterizado por botas pretas, calças de um pano cinza muito espesso que passavam os tornozelos em comprimento, e uma camisa de mangas curtas, tingida em um laranja vívido, com um brasão no peito esquerdo: a sigla O.N.I em letras pretas como o céu noturno.
 
– Bom, Tarlí, nós terminamos por aqui – disse Beatriz – Alguma dúvida?
 
– E agora? Pra onde eu vou?
– Agora… Eu vou ter que te mandar para o oficial de ressocialização. Ele vai te designar algum aposento, e te inscrever em algum dos trabalhos. Vamos indo?
 
– Espere doutora. Tenho outra pergunta – Tarlí se virou bruscamente para Beatriz e a segurou com suas duas enormes mãos pela gola de sua camisa – Onde está o meu filho?!
 
– Olha aqui, se acalme. Se tem alguém aqui que quer o bem pra sua raça, essa sou eu. Infelizmente, não sei onde ele está. Na verdade, nem sabia que tinha um.
 
– Ora, como não?! – Tarlí apertou com mais força, forçando a doutora a ficar nas pontas de seus pés – Você recebeu uma ficha da minha captura, não foi? Eu sei que recebeu!
 
– Ela está em cima do meu birô, Tarlí. Você pode conferir. Está escrito que você estava sozinho. Eles te capturaram junto com seu filho?
 
Tarlí empurrou a doutora com muita força. Ela caiu por cima de um balcão cheio de medicamentos. Ele abriu a ficha e leu com cautela.
 
– Você me disse a verdade – Tarlí falou arrependido – Me desculpe doutora.
 
– Não tem problema – ela levantou e se recompôs – Como eu disse, estou do seu lado.
 
– Você tem idéia de onde ele possa estar?
 
– Não, Tarlí. Mas posso procurá-lo.
 
– Obrigado, doutora.
 
– Agora, você tem mesmo que ir. Saindo da minha sala, siga o corredor pela direita. É a terceira porta à esquerda. Quando eu souber de algo, vou mandar te chamar. Até mais, Tarlí.
 
– Até, doutora.
 
Tarlí seguiu as instruções de Beatriz. Havia uma placa na porta escrita “Oficial de Ressocialização Francisco Félix de Souza”. Ele sabia muito bem o que esse cargo representava. Bateu três vezes na porta. Logo, ouviu uma densa e pesada voz, vinda de dentro da sala, dizer:
 
– Entre logo. Não tenho o dia todo.
 
Imediatamente, Tarlí abriu a porta. Ele adentrou a sala. Era um cômodo pequeno. Uma mesa de escritório no centro, com cadeiras em ambos os lados, com uma grande estante ao fundo.
 
Sentado atrás da mesa, estava um astral grande e corpulento, de pele morena; com o rosto coberto de pelos faciais, que escondiam a boca e deixavam o nariz e os olhos escuros quase imperceptíveis. Usava um estranho chapéu cilíndrico que escondia seus cabelos.
 
– Sente-se, Tarlí – o astral tinha uma voz autoritária, que fez sua ordem ser obedecida em uma fração de segundo – Você já esteve em algum complexo como este?
 
– Sim, senhor.
 
– Qual era o nome?
 
– A colônia astral em Kiel, senhor.
 
– Kiel? – o astral colocou sua mão na empunhadura de sua arma presa à cintura – Você fez parte da rebelião?
 
– Não senhor. Fugi anos antes. Com minha esposa e filho.
 
– Você sabe da rebelião?
 
– Sei, sim.
 
– Voltando para a sua fuga. Conheço o caso – ele colocou sua mão de volta em cima da mesa – Você manchou a reputação de Kiel, Tarlí. Diria até que foi o culpado pelo massacre que houve por lá.
 
– Senhor? – Tarlí encolheu seus ombros – Não entendi.
 
– Veja, Tarlí. Foi uma fuga sem precedentes. Muitos tentaram, eu sei. Mas geralmente, morriam tentando. Você conseguiu. Sua esposa morreu na tentativa. Isto não te impediu de fugir com seu filho.
 
As palavras proferidas pelo oficial geravam dor no ponto mais profundo da alma de Tarlí. Lembrar da perda de sua esposa nunca ficaria fácil para ele.
 
– Por isso, – continuou o oficial Francisco – nossas forças perderam moral e respeito com os internos de Kiel. Seus compatriotas perderam o que assegurava a paz e os mantinham vivos: o medo. Sem o terror tomando conta de seus pensamentos, eles logo acharam que poderiam se rebelar contra a O.N.I.
 
Fez-se um silêncio que durou alguns segundos. Tarlí os usou para pensar no que lhe foi dito. Nunca foi a intenção dele, mas a lógica do oficial estava correta. Antes da fuga, as forças astrais eram consideradas não só imbatíveis, mas também infalíveis. Sua escapada provou que os invasores também podiam errar. Isso deu ao povo de Kiel o que eles precisavam para começar uma rebelião contra o abuso e tirania dos seus captores. Deu a eles esperança. Mas era uma falsa esperança.
 
Tarlí engoliu em seco.
 
– Não ouso dizer que está errado, senhor – ele levantou a cabeça para olhar diretamente nos olhos do astral – Mas eu nunca parei para pensar desse jeito. Não era a minha intenção.
 
– De qualquer jeito, seu kepleriano imundo – o oficial cerrou os punhos brutamente – O sangue de todos eles está em suas mãos. De todos os soldados que morreram para controlar sua raça imunda.
 
– Me desculpe, senhor – não estava nos planos de Tarlí morrer nas mãos de um sujeito racista de verdade. Ele tinha de permanecer submisso até achar Forlí.
– Vejo na sua ficha que você é forte e saudável. Você irá para as minas de carvão. Dormirá no bloco D-3, quarto 248. Agora, suma da minha sala.