Rocky Creed misterplay

Você é o futuro, eu sou o passado”, disse o quase septuagenário Sylvester Stallone ao receber das mãos do diretor Ryan Coogler o prêmio do National Board of Review de Melhor Ator Coadjuvante por Creed: Nascido para Lutar. “Conforme ficamos mais velhos, nos tornamos atores melhores. As oportunidades para mostrar isso não aparecem muitas vezes”.

Apesar do reconhecimento, que também rendeu um Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante e uma indicação ao Oscar na mesma categoria (despontando como um dos favoritos para o prêmio), Stallone demorou a aceitar a proposta de Coogler para retornar pela sétima vez ao papel que o levou ao estrelato. “Estava feliz com a forma como Rocky Balboa (2006) acabou e achei que não havia necessidade de trazê-lo de volta. Mas estou feliz que Ryan tenha me feito mudar de ideia. Estou muito orgulhoso desse filme. Não faço um filme que me deixe orgulhoso assim há muito tempo”, reconheceu.

Uma vez aceito o retorno, Stallone mergulhou de cabeça no projeto, chegando no set com quatro páginas de notas sobre a vida de Rocky, novos detalhes sobre o personagem que interpreta de 1976. Esse comprometimento parece ser a determinante de toda a carreira do ator, até mesmo em momentos de desespero, como quando aceitou fazer o soft porn O Garanhão Italiano (1970) depois de ser despejado e passar a morar em uma estação de ônibus. “Era fazer aquele filme ou roubar alguém pois eu estava sem esperanças. Ao invés de tomar uma atitude desesperada eu trabalhei por dois dias, ganhei 200 dólares e consegui sair da estação de ônibus”. Com o sucesso de Rocky os produtores tentaram suborná-lo, cobrando US$ 100 mil para o filme não chegar aos cinemas, mas a proposta indecente foi recusada prontamente: “Eu não compraria nem por dois dólares”.

Stallone nunca mais voltou para as ruas mas a grande virada da sua carreira veio apenas seis anos depois, com o nascimento do seu “melhor amigo imaginário” (como o ator se referiu a Rocky Balboa durante o seu discurso de agradecimento no Globo de Ouro). A lenda diz que o filme surgiu em março de 1975, depois que o quase desconhecido Chuck Wepner aguentou 15 rounds contra Muhammad Ali. Passados três dias e 20 horas seguidas de trabalho depois da luta, surgia o roteiro que mudaria sua vida. Apesar de negar que a história de Wepner tenha servido de inspiração, Stallone precisou entrar em um acordo judicial com o lutador, que o processou clamando ser o verdadeiro Rocky.

O roteiro logo ganhou a atenção dos estúdios, mas nomes como Robert Redford, Ryan O’Neal,Burt Reynolds e James Caan pareciam muito mais promissores no posto de protagonista do que o desconhecido Stallone. Sabendo que poderia receber o sinal verde dos produtores caso baixasse o orçamento ao mínimo, o longa foi reescrito para chegar ao modesto custo de US$ 1, 075 milhão (com um adicional de US$ 100 mil de custos de produção e US$ 4,2 milhões em marketing). Sylvester Stallone então estrelou o filme, arrecadou mais de US$ 117 milhões em bilheteria (sem ajuste de inflação) e abriu caminho para uma nova geração de artistas, tornando possível histórias como a de Matt Damon e Ben Affleck com o roteiro de Gênio Indomável (1997) – o próprio Damon reconheceu a importância da vitória de Stallone quando recebeu o prêmio do National Board of Review de Melhor Ator por Perdido em Marte.

De Rocky, Stallone estabeleceu uma carreira de altos e baixos, com personagens marcantes como Rambo, ideias lucrativas como Os Mercenários (vale lembrar que o ator fez piada sobre rodar o filme no Brasil na Comic-Con 2010 e depois precisou se desculpar ), atuações elogiadas como Cop Land: A Cidade dos Tiras (1997) e momentos perturbadores como a direção de Os Embalos de Sábado Continuam (1983). Seus erros, porém, parecem ser tentativas honestas e essa mistura sinceridade artística e ingenuidade é o que o diferencia de outros astros do mesmo calibre (como o amigo Arnold Schwarzenegger, por exemplo). Filho de um cabeleireiro e uma astróloga/dançarina/promotora de luta livre, Sylvester Stallone venceu todas as adversidades para se tornar um artista completo – além de atuar, escrever, dirigir e produzir, ele também cria quadros inspirados por seus personagens . E assim o público celebra a sua nova indicação ao Oscar quase como um a vitória contra o sistema. “Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar e continuar. O quanto pode suportar e seguir em frente! É assim que se chega a vitória” – Rocky Balboa (2006).