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Não é todo mundo que tem sua vida transformada em filme. No caso de Steve Jobs, o criador da Apple, isso aconteceu duas vezes nos últimos dois anos! A biografia autorizada escrita por Walter Isaacson mostra que além de empreendedor e visionário, Jobs também podia ser bastante escroto com as pessoas. O livro serviu de base para o roteiro de Aaron Sorkin (Newsroom, A Rede Social) que virou o filme Steve Jobs, que está em cartaz no Brasil.

O Omelete conversou com o elenco principal do filme, o diretor Danny Boyle e o próprio Aaron Sorkin, em Londres, em outubro, muito antes deles receberem seus Globos de Ouro (Melhor Atriz para Kate Winslet, e Melhor Roteiro para Sorkin) e as indicações de Melhor Ator e Atriz para Michael Fassbender e Winslet.

O fato de não ser o primeiro filme sobre o tema não era um problema para o ator Jeff Daniels, que interpreta John Sculley, o executivo que mandou Jobs embora: “Acho que este segundo filme não pensa de forma alguma no primeiro. Esses projetos demoram anos para serem escritos. É assim que as coisas funcionam em Hollywood. Espero que tenhamos conseguido fazer melhor“, disse. Sorkin disse que obviamente gostaria de ser o primeiro, mas lembrou que antes do longa estrelado por Ashton Kutcher houve uma produção da HBO chamada Os Piratas do Vale do Silício, uma peça na off-Broadway chamada The Agony and The Ecstasy Of Steve Jobs e o documentárioSteve Jobs: The Man In The Machine, de Alex Gibney. “Se você pedir para 10 roteiristas diferentes escreverem a história de Steve Jobs você vai ter 10 histórias diferentes. Já estamos em 60% da comprovação desta tese”, brincou o roteirista.

Uma inspiração para esta versão escrita por Sorkin são os Contos de Natal. “Eu aprendi muito com Dickens e sabia que não poderia colocar Jobs/Scrooge acordando totalmente transformado. Ninguém ia acreditar nisso, mas tínhamos que colocar pelo menos alguma transformação. Eu já sabia o não queria fazer antes de saber o que eu queria fazer. Não tinha interesse em fazer um filme biográfico tradicional com os grandes momentos de uma pessoa ao longo de sua vida. E eu gosto de lugares claustrofóbicos. Gosto de mostrar quando o tempo está apertado e o relógio não te deixa respirar. Gosto de bastidores. E comecei me perguntar se eu ia conseguir mostrar esses pontos de atrito em três cenas em tempo real com durações de 30 a 40 minutos cada uma, todas elas ambientadas antes do lançamento de um grande produto”, disse o roteirista.

Uma das diferenças apontada por todos foi esta divisão do filme em três atos. A ideia era tão diferente da biografia escrita por Walter Isaacson, que Sorkin diz que fez algo que normalmente não faz: vender sua ideia antes de escrevê-la. “Expliquei o meu plano, para não haver caras de desespero quando eles lessem o roteiro”, disse o roteirista. E o resultado é uma cinebiografia completamente diferente do que se vê por aí normalmente. “Não é a vida de uma pessoa do momento em que ela nasce até sua morte, mas sim sobre momentos muito poderosos na vida de uma pessoa. Aaron trabalhou com três linhas do tempo e muita criatividade para fazer da nossa história uma coisa única”, frisou Kate Winslet.

Esta divisão levou o cineasta inglês a buscar também formas distintas de filmar cada segmento: “O primeiro ato é meio punk e filmamos em 60mm para dar este efeito. É meio granulado, mas jovem e envelhecido. É uma época em que ele tinha esta vontade enorme de mudar o mundo. Era tudo o que importava para ele. Já o segundo ato, depois que ele se machucou feio ao ser chutado da Apple, ele passou um tempo exilado. Ele está ali mexendo em uma máquina que ele sabe que não funciona, mas que é o seu bilhete para voltar à Apple. Por isso filmamos em 35mm, que é meio como uma ópera, parece meio líquido. Eu dizia que tem um rio subterrâneo com intenções que você não consegue seguir. O filme é perfeito para isso. É meio noir, acentua cortinas de veludo vermelho e este tipo de coisa. E o terceiro ato é limpo, dá para ver tudo. Significa as possibilidades infinitas do futuro, do mundo digital. Filmamos com uma Alexa, que pode ser modificada para qualquer tamanho. Esta era a visão dele: pura e limpa, sem barreiras entre você e a experiência”.

O roteiro e os ensaios

Assim como o último trabalho de Sorkin na TV, Newsroom, o roteiro é recheado de diálogos. Kate Winslet foi quem mais falou sobre ele: “Quando li o roteiro pela primeira vez, lembro que fiquei tentando segurar minha cabeça para não explodir. Eu estava literalmente segurando minha cabeça. Eu lembro particularmente de uma cena do terceiro ato que me deixou olhando para as cortinas horríveis que tinha no quarto do hotel onde eu estava sem conseguir imaginar como fazer aquela sequência. Mas quando estávamos ensaiando, com todo mundo junto, você entra numa espécie de ritmo de maratona em que você tem que correr num ritmo constante e acompanhando os outros. E posso dizer que foi divertido atuar com este roteiro depois, porque você não precisa ficar pensando em coisas interessantes para fazer ou ficar improvisando para tentar descobrir uma versão melhor para aquela cena. Não mexa em nada! Sério! Está ótimo do jeito que está. Esta foi uma das coisas que nós aprendemos. Não é que nós tentamos mudar o texto, mas quando alguém acabava esquecendo uma fala ou trocava algo de lugar, nunca funcionava do mesmo jeito. Há um ritmo, uma cadência, e se você acabar tocando as notas erradas percebe na hora que ficou uma bosta.Seth Rogen, que interpretou o co-fundador da apple, Steve Wozniak, e também é roteirista também teceu seus comentários: “Foi um dos melhores roteiros que eu já li. Era muito inovador. A estrutura, o layout não tinham nada a ver com uma cinebiografia. E isso me causava inveja e me deixava muito bravo [risos] O timming do roteiro era perfeito e conseguir ajustá-lo à atuação levou tempo, muitos ensaios.

Nós ensaiamos bastante e durante os ensaios você vai sentindo que eles [os atores] vão ganhando um ritmo. Eles são como músicos. Ótimos músicos. E quando tem um grupo destes, o que você tem que fazer é deixá-los à vontade entre si e mostrar o caminho certo”, se diverte Boyle. Seu protagonista concorda: “Com a cadência e o ritmo, a personalidade vai brotando em você. Tudo o que eu posso dizer é que eu me sentava lá e lia o roteiro de novo e de novo. Eu vivo e respiro aquilo. Eu gosto desta repetição. Penso em um músico, por exemplo, que toca a mesma música todo dia várias vezes. É a forma como eu vejo a atuação, incluindo a possibilidade de deixar o jazz acontecer ao vivo”, disse Fassbender.

Jeff Daniels também citou o ritmo do roteiro como determinante, mas exaltou o trabalho do diretor: “acho que o Danny filmou e editou nesse ritmo”, disse. “Eu achava que era impossível transformar um roteiro de 185 páginas em duas horas. Filmamos tudo muito rápido, mas sem ter que falar rápido. As pessoas falavam normalmente. Mas na edição nós aumentamos esta velocidade. Uma pessoa normal respira para falar e na edição você pode cortar isso fora. […] Nós queríamos que os atores dominassem a cena por completo e rodamos as sequências inteiras, sem cortes até o final. É meio estressante, mas depois eu ia e filmava tudo de novo de um novo ângulo a cena inteira e ia para a ilha de edição com um material que me permitiu trocar a energia de peça que nós tínhamos e fazer um filme. Tenho que agradecer muito ao maravilhoso montador chamado Elliot Graham”, elogiou Boyle.

O sentimento de estar em uma peça era algo compartilhado por todos. “Era exatamente como trabalhar no teatro. Até porque Danny é do teatro e nós nos aproveitamos de toda a experiência dele. E nós ensaiamos como se fosse uma peça. Nós aprendemos nossas falas até chegar naquele ponto em que estávamos na sala de ensaio sem o roteiro em nossas mãos. Tudo era 100% planejado. E ao contrário do que muita gente deve imaginar, eu fiz muito pouco teatro. E até por isso participar deste processo fui uma aula para mim”, disse Winslet.