o mister play kepler

 Tarlí abriu a porta da sala do oficial de ressocialização. Um soldado astral estava de prontidão, esperando-o no corredor. Ele se pôs em sentido, bateu continência e disse:

   – Senhor?

   – D-3, soldado. Faça a escolta e volte para os seus serviços de rotina. Dispensado.

   Sim senhor. Vamos kepleriano. Andando.

   O soldado empurrou Tarlí com o cano de seu fuzil. As armas astrais eram grandes, sofisticadas, feitas de um material leve e atiravam numa altíssima velocidade. Eram mais que um mero incentivo para andar bem rápido.

   Ambos caminharam por um amplo corredor, e então uma recepção vazia. A porta de saída era um bloco maciço de aço, travada por cinco barras de aço. Havia um painel ao seu lado. O soldado pressionou a palma de sua mão contra a tela, e então a porta se abriu.

   – Pra fora – o soldado apontou o caminho com sua arma.

   Ao pisar naquela calçada cinza, o desespero subiu à cabeça de Tarlí. Era como ele se lembrava. Aquele campo de aprisionamento prezava pela melancolia, assim como todos os outros construídos pelos astrais.

   Eram quilômetros quadrados de ruas e prédios exatamente iguais, cercados por uma muralha de concreto com doze metros de altura. Tudo era cinza. As paredes das construções, as louças e os móveis nos apartamentos, os uniformes, os veículos e até mesmo o papel higiênico. Por tudo que é mais sagrado, até mesmo a comida geralmente era uma pasta nutritiva com corante cinza.

   Houve um tempo em Kiel em que todos foram punidos pela tentativa de fuga de alguns jovens. Ficaram todos confinados em seus apartamentos. Um dos trabalhadores da fábrica ficou maluco naquele tempo. Cortou seus braços apenas para ver a cor de seu sangue e quebrar com aquela monotonia do cinza. Tarlí lembrava bem o quão difícil foram aqueles dias.

   Ambos andaram por alguns minutos, até chegar a um prédio que tinha “D-3” escrito na sua fachada. Então o soldado foi embora. Tarlí entrou. Ele passou pela pequena portaria e subiu as escadas. Chegou em frente ao quarto 248, abriu sua porta e entrou.

   O pequeno apartamento era composto por um quarto, um banheiro e um cômodo que era uma mistura de sala de estar, sala de jantar e cozinha. Como ele moraria sozinho ali, era o suficiente.

   Um uniforme cinza o esperava sobre a cama, junto de um envelope de instruções de trabalho. Ali constava que todos os dias às sete da manhã, um soldado passaria para buscá-lo. Uma van o levaria para fora do complexo até a mina mais próxima. Ela o traria de volta ao fim do expediente.

   Tarlí tomou um bom banho e vestiu um dos uniformes. Ele se sentou em um cadeirão que estava na sala e pegou um livro no criado ao lado. “A Crônica Do Rei Bandido”, um livro escrito por Johan Fra Tårnet, baseado em fatos históricos, que conta a história de um dos reis de Deutochland na era medieval. Naquele reinado, o país ainda se chamava Neue Erde. Uma boa leitura, já que a história era de fato impressionante.

   O tempo foi passando enquanto ele lia. Logo, a fome chegou para fazê-lo companhia. Ele pôs o livro de volta aonde estava, levantou-se e foi até a cozinha. Abriu o armário. Só havia a maldita pasta cinza que os astrais fabricavam. Mas Tarlí estava faminto. Acendeu o fogão, que era automático, algo que antes não existia em sua vida, e colocou o alimento para esquentar em uma panela. “Algumas tecnologias astrais são bem úteis, na verdade”, pensou.

   Enquanto ele pensava nesse tipo de coisa, alguém bateu em sua porta. Tarlí abriu sua porta, pois sabia que a derrubariam se não o fizesse.

   Do outro lado estava um astral, um pouco mais alto que ele, de pele branca, cabeça raspada e olhos negros.

   – Boa tarde; senhor. Eu sou o assistente de ressocialização deste prédio. Meu nome é Malcon Smithers. Passei para dar-lhe as boas vindas. Vim o mais rápido que pude.

   Tarlí limitou-se a encará-lo, até que ele percebeu que não era bem vindo.

   – Bom, eu trouxe café – ele levantou uma garrafa térmica, outra tecnologia útil dos astrais – pensei que poderíamos compartilhar uma xícara.

   Não havia más intenções na visita. Aquele astral parecia muito jovem para estar ali, também. Tarlí ficou com medo de que o assistente inexperiente interpretasse sua rispidez como traição.

   – Entre. Vou pegar as xícaras – Tarlí forçou-se a esboçar um sorriso.

   – Oh, sim, com licença.

   Os dois sentaram-se à mesa. O assistente serviu a bebida. Quente e amarga, como Tarlí tinha aprendido a gostar nos seus tempos em Kiel.

   – Então – o assistente tentou iniciar a conversa – Como é o seu nome?

   – Tarlí, senhor.

   – Não, não me chame de senhor. Chame-me de Malcon, por favor.

   Tarlí estranhou. Afinal, um carcereiro geralmente é chamado de senhor. Mas acatou a decisão.

   – Está bem… – ele suspirou – Malcon.

   – Pois é, Tarlí – ele deu um forte gole no café – Fiquei sabendo que você foi capturado, e não transferido como os outros que chegam aqui.

   – Sim. Isso é verdade.

   – Então você nunca esteve em um lugar desses antes?

   – Você sabe que eu estive – Tarlí deu duas goladas em seu café – Em Kiel. Também fui mineiro por lá. E você sabe disso.

   – Bom, se eu soubesse, eu não perguntaria, Tarlí.

   – Já eu acho que sim. E aposto que você tem mais perguntas.

   Malcon suspirou. Ele bebeu todo o café na xícara e a encheu novamente. Balançou-a um pouco, e cheirou o aroma que a bebida exalava. Espremeu seus olhos em satisfação. Então, voltou a fitar Tarlí.

   – Até agora, não consegui manter uma relação amigável com nenhum de vocês, keplerianos. Todos me trataram de forma arisca. Entendo o motivo deste comportamento. Sei o que minha raça tem feito com vocês. Mas pensei que poderia conseguir com você. Já percebi que pensei errado.

   – Sim. Pensou errado mesmo.

   – Enfim, isso não importa. Vamos direto ao assunto. Mandaram-me aqui para colher informações de você. Seu grupo lá fora, quem eram, onde acampavam, por quais rotas circulavam. Você pode me dizer algo?

   – O tenente que me capturou não disse nada? – Tarlí virou o rosto de lado, em sinal de desprezo – Estão todos mortos. E o meu filho foi levado por ele para não sei onde.

   O assistente fez uma cara de espanto.

   – Filho? Você tem um filho?

   Pela cara de Malcon, ele estava realmente surpreso. Aquilo assustou Tarlí.

   – Espera – Tarlí colocou as mãos sobre a mesa e se esticou para frente – Você também não sabia? Não pode ser possível.

   – Não há crianças no complexo, Tarlí. Há muitos anos a taxa de natalidade chegou a zero e nunca mais subiu.

   Aquelas palavras ecoaram na cabeça de Tarlí como uma dezena de facadas. Será que Forlí estaria morto? Aflito, ele começou a chorar.

   Vendo Tarlí aos prantos, Malcon se levantou, foi ao lado dele e repousou sua mão no ombro do pobre pai, que estava agora aos prantos.

   – Eu sou honesto com todos aqui, Tarlí. E serei mais ainda contigo. Não se deixe enganar. Este complexo é uma prisão. Muitos da minha espécie chamam este lugar de “campo de concentração”, e você não sabe o peso que isso tem para nós.

   Pouco se importando com aquelas palavras, que não revelavam nada mais do que ele já sabia, Tarlí ficou calado.

   – Eu preciso ir. Procurarei saber algo do seu filho. Isto irá te trazer algum conforto, sem dúvidas. Eu deixarei o café aqui. Por favor, aproveite. Cuide-se. Seja forte. Até mais.

   O astral saiu do apartamento e fechou a porta. Tarlí gritou com toda sua força e arremessou a mesa para cima. E a maldita garrafa térmica não quebrou ao cair no chão. Parecia que tudo que vinha dos invasores era invencível.