KEPLER O MISTER PLAY

Mesmo depois de uma péssima noite de sono, a tristeza e amargura ainda eram dominantes em Tarlí. Ele queria o seu filho de volta, mais do que tudo no mundo. Por entre as cortinas de seu quarto, entrava a forte luz dos postes astrais.

   Ele chegou perto da janela, com seus olhos inchados e sensitivos demais à luz. Tinha chorado tanto de madrugada que a luz astral lhe cegara por cinco minutos. Olhando para o céu, percebeu que Liana ainda não havia nascido para iluminar as ruas.

   Não podendo suportar a dor de cabeça, foi até sua cozinha para tomar um pouco d’água. Parou em frente a pia. Decidiu tomar café. Puro. Forte. Amargo. Quente. A sensação da cafeína tinha um efeito em seu corpo que o despertava tão bem quanto um tiro zunindo perto do ouvido.

   Sentando-se em sua poltrona na sala, ele decidiu refletir. Ponderar tudo que acontecera na última semana. Mesmo que ele ainda não conseguisse acreditar que ela tinha realmente acontecido. Precisava repensar em todas as suas atitudes. Quais erros ele cometeu para chegar à situação atual?

   Tarlí tinha uma ótima lembrança. Primeiro, refletiu sobre sua situação inicial com Forlí. Escondido numa cabana no meio do nada. Fez isso por sua esposa. Ela também era uma coletivista. Ambos se conheceram em uma passeata que fora atacada pelos membros do partido comercialista.

   Ele nunca havia amado alguém tão intensamente quanto a amou. Hoje em dia, sequer conseguia pronunciar seu nome novamente, tamanha a dor de sua perda. Este sofrimento tornava-se maior ainda pelo peso da culpa da morte dela em seus ombros. Tarlí a deixou para trás, sabendo o que os astrais iriam fazer. Sua esposa deve ter sofrido muito antes de morrer.

   Após passar tanto tempo escondido na mata, morando numa cabana junto de seu filho, veio mais uma surpresa. E novamente, Tarlí não soube lidar corretamente com a situação, cometendo mais um gravíssimo erro que o marcaria para todo o sempre. Foi a aparição de Bohen.

   Com certeza Bohen fora o melhor amigo que já teve em toda a sua vida. Com a difícil e perigosa situação política que o país vivia, Tarlí chegou perto da morte algumas vezes. Bohen, apesar de ser um comercialista, o salvou de um linchamento em via pública. Tarlí era extremamente grato por isso. Os dois sempre se ajudaram nas mais adversas situações.

   A preocupação com seu filho fez Tarlí perder a cabeça de uma maneira irreparável. Bohen não estava sendo seguido. Os astrais caçavam o grupo que ele mais tarde conheceria na mata. Mas ele se precipitou e tomou as palavras de Bohen como mentiras. Assassinara seu melhor amigo. O sangue manchara suas roupas, grudara em suas mãos, pintara o branco da neve. Isto era algo tão imperdoável quanto ter abandonado sua esposa.

   Como se não fosse o bastante, cometeu outro erro no dia em que os astrais atacaram ele e o grupo de fugitivos na floresta. Talvez a atitude incorreta que mais pesava sobre seus ombros no momento. Deixara Forlí cair numa moita, e ao invés de pegá-lo de volta, acovardou-se e se escondeu em um buraco. Que tipo pai ele era para abandonar o filho no chão, em meio à galhos, folhas e neve? Que tipo de covarde ele havia se tornado, que não protege nem mesmo a sua própria cria?

   O Tenente Dyke levou seu filho para algum lugar que ninguém tem conhecimento de onde seja, e a culpa era de Tarlí. Dyke devia ter o matado quando ele se rendeu.  Não teria feito mais do que eliminar a escória da raça racional.

   Era assim que Tarlí se sentia. Um traidor, assassino, covarde. Alguém aquém do direito à vida. Um corpo cujo qual era injustificável continuar respirando. As lágrimas que escorriam pela sua bochecha eram prova de sua fraqueza e insignificância. Não merecia a bondade de ninguém, nem mesmo de seus semelhantes.

   Tarlí errou durante toda a sua vida. Ela mesma em si já era um erro. Ele devia ter morrido para que sua esposa e filho fugissem em segurança. Mas ele foi um covarde. Completamente inútil. Deveria ter encerrado sua existência ali, salvando alguém. Deveria, mas não o fez.

   Devia ter acreditado nas palavras de Bohen. Na verdade, era totalmente inadmissível não ter acreditado no amigo. Era hediondo e extremamente repugnante tê-lo assassinado daquela maneira. À sangue frio, esfaqueado e jogado numa vala no meio do nada. Tarlí não conseguia sequer olhar para as suas mãos ao lembrar-se do que fez.

   Quando Dyke os alcançou na floresta, ele devia ter colocado a segurança de Forlí em primeiro lugar. Pensando assim, ele já havia deixado a segurança do filho de lado quando se juntou aos fugitivos. Era muito óbvio o que iria acontecer. Mesmo assim, devia ter tomado todos os tiros ao invés de deixar seu filho para trás.

   Como pai, ele deveria ter feito mais. Manchara assim sua figura paternal diante de seu filho. Duvidava que Forlí fosse confiar nele novamente algum dia. E ele daria razão ao garoto. Fora ínfimo, medíocre, insuficiente. Arrependia-se amargamente desta covarde atitude.

   Por que ele não morreu no dia que fugiu pela primeira vez? Por quê? Seria ele um carma na vida das pessoas a sua volta? Até agora, tudo o que tinha feito era atrapalhar a vida de todos. Não havia sentido em continuar machucando tudo e todos ao seu redor. Não queria mais ser esse peso morto amarrado às canelas dos outros. Queria morrer. Desejava muito a própria morte.

   Depois de um bom tempo de reflexão, decidiu que precisava morrer. Precisava muito morrer. Ele era um erro ambulante no mundo. Não deveria sequer ter existido. Devia ter lutado contra os astrais no dia da invasão e morrido ali mesmo. Não teria causado tantos problemas. Não teria sangue em suas mãos.

   Tarlí se levantou da poltrona e foi até a cozinha. Abriu um armário, pegou um pano de prato e enxugou suas lágrimas. Parou de chorar. Assuou o nariz na pia. Lavou sua xícara. Pegou outro pano. Secou-a. Guardou-a. Foi para o quarto. Arrumou sua cama. Fechou as cortinas. Não queria dar trabalho para ninguém.

   Voltou para a cozinha. Abriu uma gaveta. Pegou uma faca de cortar carnes. Amolou-a numa pedra redonda. Segurando a faca, foi até o banheiro. Colocou a faca na pia. Tirou toda sua roupa. Ligou o chuveiro. Pegou a faca. Entrou na banheira. A água fria escorria em seu corpo. Ele realmente não queria dar trabalho para ninguém. Não haveria sangue a se limpar deste modo.

   Segurou com firmeza o cabo da faca com as duas mãos. Manteve-a firme em frente ao seu rosto. Olhou diretamente para a ponta afiada e o cortante gume. Puro aço. Pronto para cortar. Tarlí estava decidido. Iria tomar a saída mais fácil. A saída dos covardes. Afinal, era isso que ele era.

   Com cautela, encostou a ponta da faca em seu pescoço. Inspirou profundamente. Fechou os olhos. Expirou. A faca lha machucou a pele. Precisava apenas de tomar um pouco de coragem. Esperou um pouco. Sentiu que o sangue lhe descia pelo peitoral. Pouco, pois mal havia ferida no momento.

   Começou a empurrar a faca. Sentiu a dor lancinante do objeto metálico invadindo seu corpo. Sentiu o sangue escorrer pela lâmina, molhando o cabo e melando suas mãos. A dor o fez parar. A dor era quase insuportável. Não podia lutar contra o instinto. O jeito era fazer rápido. Para que não pudesse parar.

   Afastou bem a faca de seu pescoço. Iria puxá-la para perto ao mesmo tempo em que jogava seu corpo na direção dela. A dor fazia seus braços temerem. Ele precisou de alguns segundos para se recompor. Olhou para o teto. Precisava controlar a dor. Fechou os olhos com força. Faria uma contagem final. Eram seus últimos momentos de vida.

   Cinco.

   Quatro.

   Três.

   Dois.

   Um.

   – Tarlí! Saia daí! Hora de Trabalhar! Kepleriano preguiçoso!

   O grito o parou. Tirou a coragem do seu corpo. Ele começou a chorar. Era covarde a ponto de não conseguir sequer cometer suicídio.

   – Se você não sair logo eu arrombo!

   Era uma voz nova. Provavelmente um soldado. Ele saiu da banheira. Secou-se. Pegou um esparadrapo em baixo da pia. Enrolou-o no pescoço. Colocou a roupa. Meteu mais um pedaço de esparadrapo no bolso. Desligou o chuveiro. Calçou os sapatos. Dirigiu-se a porta. Abriu-a. Seu primeiro dia de trabalho estava prestes a começar.