Embarcados desde o cair da noite do dia 29 de junho de 1944, somente no dia 2 de julho zarpou o navio-transporte americano USS General W.A. Mann, e levava pela primeira vez na história uma força militar de sul-americanos para lutar em plena Europa. Na madrugada do dia 30, o presidente Vargas visitou o navio e fez um discurso utilizando o sistema de som:

Soldados da Força Expedicionária! O chefe do governo veio trazer-vos uma palavra de despedida, em nome de toda a nação brasileira. Sei quanto nos custa, a todos, este momento transcendente em que vos separais dos vossos lares, do calor e do carinho dos entes amados. O destino vos escolheu para a missão histórica de fazer tremular, nos campos da luta, o pavilhão auriverde e responder com a presença do Brasil às ofensas e humilhações que nos tentaram impor. Dedicai-vos de corpo e alma à vossa gloriosa missão. A nação vos seguirá com o pensamento ungido pelas mais fervorosas preces de Deus, certa de que a vitória será o apanágio das vossas armas. O governo não se descuidará um instante, no desvelo pelas vossas famílias. Estejais tranquilos. É com emoção que aqui vos deixo os meus votos de pleno êxito. Não é um adeus. É, antes, um “até breve”, quando ouvireis a palavra da pátria agradecida.

O rebuscado discurso de despedida aos pracinhas guarda em si a essência de tudo que significou o envio da FEB para a guerra. Muitas das razões para lutar, das justificativas, dos apelos emocionais e das promessas que naquele momento foram feitas não seriam cumpridas pela “pátria agradecida”. Vargas esteve presente nos embarques seguintes do contingente brasileiro para a Itália. O 2o e o3o escalões — que partiram em setembro em dois navios — chegariam a Nápoles nesse mesmo mês. O 5o e último escalão chegaria à Itália no fim de fevereiro de 1945.

Durante a viagem, ainda havia o temor de que algum ataque ao comboio pudesse ser realizado por submarinos do Eixo, mesmo com a escolta de navios americanos e brasileiros e a cobertura aérea possível, ao longo da travessia do Atlântico. Todos a bordo tentavam equilibrar o rigor com os horários de refeições — e se acostumar ao cardápio americano com feijão doce, ovos, bacon e suco de grapefruit (toranja) — ocupando-se em atividades diversas de leitura, carteado com apostas, xadrez, damas ou apenas tomar sol pensando em como seria a guerra que aguardava os brasileiros. Os horários de recolhimento eram muito rígidos, e os relatos dos pracinhas contam da grande movimentação nos banheiros, onde muitos acabavam devolvendo toda a comida por conta do enjoo a bordo. Até mesmo um barril era deixado perto das camas nos alojamentos, para facilitar o serviço dos que passavam mal.

Nos navios, havia sessões de cinema, um conjunto musical da Marinha americana que se apresentava conforme um programa distribuído para os viajantes. Os pracinhas que levavam seus instrumentos na jornada — violões, gaitas, pandeiros e até cuícas — acabaram promovendo concorridos saraus a bordo, que conseguiam agregar todos num grande coral a cantar sambas e outros temas populares, o que afastava maiores preocupações e o tédio da viagem. A passagem pela linha do equador sempre exigia uma tradicional e engraçada cerimônia, encenada com alguém fantasiado de rei Netuno e autorizando o cruzamento dos mares, o que acabava em samba entre os brasileiros.

Os pracinhas e todos a bordo eram obrigados a realizar treinos para evacuar o navio inúmeras vezes ao longo da viagem. Muitos se assustavam com os exercícios de tiro que eram eventualmente realizados pelos navios do comboio. Em certa altura da jornada, um avião americano, rebocando um alvo para instrução de tiro antiaéreo, causou confusão quando muitos pensaram que o navio estava sendo atacado.

Essa foi a rotina básica de todos os traslados das tropas brasileiras até o front do Mediterrâneo. Quando o General Mann adentrou o mar Mediterrâneo pelo estreito de Gibraltar, ocorreu um fato no mínimo insólito: a rádio BBC anunciou abertamente pelo seu serviço de transmissões ao redor do mundo que um navio com um contingente militar brasileiro estava chegando ao teatro de operações italiano. A transmissão, recebida pelo rádio do navio, que reproduzia a programação pelos alto-falantes a bordo, causou um grande susto. O comandante do navio determinou imediatamente o estado de prontidão, e soaram alarmes.

Ninguém estava autorizado a ficar no convés, e equipes da artilharia antiaérea tomaram posições. A mobilização era total. Em seguida, contatos de rádio das bases Aliadas na região alertaram sobre aviões alemães, rastreados ao norte da Itália, que estariam em rota para atacar navios Aliados no Mediterrâneo. Da mesma forma, o Comando Aéreo Aliado foi posto em ação, aparentemente impedindo que os aviões inimigos se aproximassem do comboio brasileiro. Depois de alguns momentos de tensão, passado o susto, ficou o mistério sobre as razões de tamanho descuido da tradicional rádio britânica, que colocou em risco toda a operação de chegada da FEB à Itália.

Finalmente, no dia 16 de julho de 1944, o 1o escalão da FEB desembarcou em Nápoles. Paul Macguire, o comandante do General Mann, saudou a tropa brasileira em sua despedida: “Nosso navio já transportou milhares de tropas e ainda muitas mais terá que transportar, mas nenhuma delas deixará, por certo, melhor impressão que a vossa.”

Antes de se provarem em combate, ao menos os soldados brasileiros receberam essa boa nota pelo comportamento durante a viagem até os portões da guerra. Já na chegada, o que saltou aos olhos de todos os pracinhas quando desembarcaram num dos principais portos do Mediterrâneo foi o estado de total destruição no qual não só o porto, mas toda a cidade se encontrava. Esqueletos de navios destruídos e encalhados, ruínas de prédios e de instalações portuárias e montanhas de escombros compunham o cenário de uma cidade fantasma. Muitos relatos falam do frio na espinha que percorreu cada um dos que se depararam com aquela cena. Finalmente viram a guerra de que tanto falavam, dando uma mostra de seu perfil devastador.

A tropa brasileira, composta por 5.800 homens, foi encaminhada ao ponto de reunião na localidade de Agnano, 25 quilômetros distante do porto. No trajeto até a estação ferroviária, os soldados brasileiros, desarmados e um tanto desancados depois da longa viagem de navio, não chegavam nem perto do garbo e do alinho esperado das tropas libertadoras Aliadas.

Uma vez que o uniforme do Exército brasileiro lembrava um pouco os uniformes alemães e italianos, tanto no corte quanto na coloração esverdeada, no bibico (casquete militar) e nos muitos botões na parte da frente das jaquetas, aconteceu de os cidadãos locais suspeitarem de que se tratava de um contingente de prisioneiros alemães sendo trasladados, o que gerou algumas demonstrações de hostilidade por parte da sofrida população local. Alguns apupos, vaias e ações mais impetuosas de um ou outro italiano mais exaltado, que pensava estar indo à forra de algum “tedescomaledetto” (alemão maldito), foram incluídos nos relatos bem-humorados dos pracinhas, mas serviram também como argumentoao se tentar denegrir a participação do Exército brasileiro já na sua chegada àguerra. Os relatos ganhavam ares de crítica e de humilhação, certamente distorcidos por aqueles que ainda não se conformavam com a entrada do Brasil no conflito.

Somente na chegada ao local do acampamento — situado numa ampla área que ficava dentro da cratera do extinto vulcão Astronia — constatou-se uma séria gafe cometida por parte da organização logística da FEB e do comando americano na região: a tropa estava desprovida de tendas coletivas, o que obrigou-a a pernoitar ao relento, já que também não havia alojamentos, galpões ou qualquer prédio que permitisse o acantonamento (acampamento feito em uma área coberta).

Depoimentos

Depoimento: Jacob Gorender, jornalista e historiador, lutou na Itália

Meu pai era um homem muito pobre e minha mãe também. Eles se uniram já um tanto idosos, com 33 anos e tiveram cinco filhos. Hoje são vivos eu e um segundo. Os outros três faleceram… Meu pai era um homem muito pobre e, apesar de judeu, não sabia fazer dinheiro. Eu passei uma situação muito difícil na infância e na adolescência. Foi difícil estudar. Eu não tinha roupa para frequentar o ginásio. Usava um tênis de última qualidade, furado às vezes. Eu botava um papelão em cima do buraco para poder andar. Comecei a me estabilizar quando me tornei jornalista e passei a ganhar algum dinheiro. Com isso a minha situação começou a ficar estável, pois eu já não dependia da família. Eu devia ter então uns 17 anos. Eu estava no ginásio da Bahia, depois eu sai e fui aluno da Faculdade de Direito até o quarto ano. Aí eu fui para a FEB, fui soldado da FEB e a minha vida deslanchou.

Eu me incorporei em Salvador como voluntário. É preciso compreender o contexto daquela época. Os submarinos alemães torpedearam navios mercantes brasileiros e centenas de brasileiros morreram nesses naufrágios. Isso gerou uma indignação muito grande e eu participei das manifestações em Salvador, onde eu residia. Manifestações contra o Eixo e pela declaração de guerra, o que acabou ocorrendo. Getúlio Vargas, presidente do Brasil, acabou declarando guerra. Aí abriu-se o voluntariado em vários lugares do Brasil. O que ocorreu, um episódio curioso, o general que comandava a região de Salvador – eu me lembro o nome dele: general Demerval Peixoto – fez o seguinte desafio: “Os estudantes que pediam guerra, declaração de guerra tem agora a oportunidade de se apresentar como voluntários”. Eu considerei isso como um desafio pessoal e resolvi me apresentar. Fui ao quartel-general e me apresentei e acabei aceito. Já em Salvador fui incorporado e fui transferido para São Paulo, onde fiz algum treinamento. Depois fui transferido para a Itália.

Na época, eu já era do Partido Comunista. Ele estava meio desagregado naquela época por causa da repressão. Militei com Mário Alves – ele não foi incorporado porque não tinha condições físicas (Alves foi um importante dirigente do PCB e acabou assassinado durante o regime militar). O fato de eu ser comunista – o prestígio da União Soviética, que estava em guerra contra os nazistas – pesou na minha resolução. Quando chegamos à Itália já havia brasileiros em combate. Eu era da companhia de transmissões do 1º Regimento de Infantaria. Nosso comandante era o coronel Caiado de Castro, mais tarde chefe do gabinete militar de Getúlio Vargas. Eu era um simples soldado. Não fui mais do que isso. Era do pelotão de transmissões. Particularmente a minha tarefa e a da equipe a qual eu pertenci era de zelar pelos fios de transmissão, que, como o front estava estabilizado, eram rompidos por granadas. Às vezes éramos obrigados a sair da cama, nós estávamos na casa da camponeses italianos, para consertar o fio. Isso era uma tarefa penosa e perigosa, pois ficávamos expostos à agressividade da artilharia nazista.

O fato de ser judeu não tinha para mim nada de especial. Eu convivi como soldado igual aos outros. Não teve influência nem positiva nem negativa. Mas eu tinha uma noção de que se eu caísse nas mãos dos nazistas, eles facilmente saberiam que eu era judeu, circunciso, e eu estaria perdido. Não tinha jeito.

Quando cai a bomba, é aquela luminosidade, a gente fica cego, não enxerga nada. Caí no chão, comecei a me debater. Estava sozinho, pois meus colegas tinha recuado para salvar a pele. E eu fiquei ali com hemorragia tremenda, sem poder me levantar, fazia um esforço, mas não conseguia, não conseguia.

Eu tenho estilhaço ainda no pulmão até hoje, eu tirei dois, extraíram dois, mas um permanece até hoje. Quando eu fui ferido eu achei que era meu fim. Eu percebia três furos no capote e o sangue escorria abundantemente uma hemorragia muito forte, então eu logo deduzi o seguinte: a hemorragia que vai me acabar. E nessa hora, aqui pra nós, o único que você se lembra é da sua mãe… uma hora difícil, viu, é difícil, mas felizmente eu fui pro hospital, me socorreram, me safei dessa.

A guerra é o pior que pode acontecer, não existe nada pior.

Quem devia fazer a guerra são os chefes, as duas cabeças, eles é que deviam se enfrentar e poupar o resto do mundo.

Um dos fatos que me marcou foi a morte do tenente chamado José Maria Pinto Duarte. Estavam eu, o Atratino, o capitão Tavares, primeiro-tenente e um soldado corneteiro. Começou a escurecer e nós avançamos até um determinado ponto e ficamos. E nisso avistamos a casa a uns cem metros, 200 metros a frente e o capitão Atratino me falou: vai dar uma olhada na casa e vê se tem condição de a gente se acomodar lá. Nos alojamos ali.

Tinha um monte de milho debulhado, eu esparramei o milho e deitei em cima.

Durante a madrugada, ouvi vozes. Não julgávamos que fossem os alemães. Mas eram. Durante a noite, eles retomaram as posições que tinham. Ficaram pertinho da gente. O nosso pessoal percebeu e recuou, mas nós na casa não percebemos. A gente via os soldados alemães passando com munição.

O capitão Atratino estava excitado demais. Ele apontou e atirou no soldado. Lógico que matou o pobre infeliz, mas eles perceberam e aí viraram a metralhadora para nossa casa. Aí começou aquele salve-se quem puder. E o Atratino: corre, foge, foge.

Eu fui o primeiro a pular pela janela. Aí pulou o Atratino e, nisso, pulou o José Maria Pinto Duarte, ele foi tão infeliz que o atingiram com uma rajada.

Nós tentamos puxá-lo, mas naquele fogo intenso, naquele sufoco. O Atratino: corre, corre se esconde.

Eu deixei os dois e saí correndo. O Atratino tentava arrastá-lo, mas ele era um homem muito alto, pesado, era difícil.

Eu me lembro quando ele falou: “Cuide bem da minha filha”, como uma súplica, uma verdadeira súplica. Aquilo calou muito, me marcou. Eu nunca esqueço disso.

Praticamente engatinhando, fui saindo até que cheguei na minha companhia. Eram oito horas. O capitão Atratino, quando me viu, me abraçou, quase que chorando viu. Falou: “Rapaz, eu pensei que você tinha morrido também. Já não contava mais contigo”. Eu falei: “E o Zé Maria?” “Esse já foi”, respondeu o capitão.

Olha, coisa boa a guerra não é. Não existe coisa pior. A guerra é uma destruição de tudo. Caráter, vidas. Eu me lembro de uma senhora com uma criança de nove anos que veio correndo pro meu lado pedindo comida. Nós não podíamos. A alimentação era toda em lata.

Tinha a F9, que era um feijão grosso. Aquilo era intragável. Eu não comia então ia juntando aquelas latas. Tinha sete, oito latas daquela. Quando a mulher veio eu peguei, fui procurar as latas escondidas e dei pra ela. Mas ela devorou aquilo de um modo espantoso, espantoso.

Ela abria a lata, botava assim e comia, sem mastigar sem nada e a criança agarrada, clamando… ela nem lembrava da criança, quando ela comeu três ou quatro latas que ela foi lembrar da criança, mas olha, comia com uma avidez que assustava a gente. Como é que essa mulher engole desse jeito.

Até hoje tenho pesadelos. Volta e meio tenho um sonho e relembro fatos. Na hora me ocorre a lembrança de certas passagens lá. Ainda hoje. Sessenta e tantos anos após o conflito. Que a pessoa fica marcada.

Eu me lembro de um soldado chamado Guilherme. Uma vez a gente estava numa tarde de um tiroteio tremendo e a gente engatinhando para não ser atingido, pois oferecia menos volume como alvo e, naquele dia, ele levantou e saiu correndo e eles com aquela metralhadora. Falei: “Vai morrer”. Ninguém se atrevia a levantar e sair correndo. Eu peguei nas pernas dele e o derrubei. Ele era franzino. Minha sorte era essa. Ele estava transtornado completamente. Nunca me esqueço… um rapaz novo ainda, era mais novo do que eu.

Atirei muitas vezes na guerra. Não posso dizer se matei ou não. Por que ali, não é assim. Eu aqui. É a 200, 300 metros e como não é um só que atira, a gente as vezes até via o cara tombar, mas não posso precisar se foi o meu tiro que o atingiu ou não e não quero nem pensar que fui eu.

No fim, me lembro de uns prisioneiros que nós pegamos lá. Um sargento alemão chegou perto de mim… Quem tinha apanhado foi um tal de Nascimento, um sargento, que os tinha aprisionados. E esse Nascimento era um tanto agressivo. Eu disse: “Nascimento, pera aí, vamos devagar, os moços já estão presos. Não têm como reagir mais. Vamos tratar eles como seres humanos”. Eu quis amenizar a situação. E não sei se o sargento, esse alemão, ele entendeu o que eu quis dizer, que imediatamente ele ajoelhou aos meus pés, como que pedindo perdão. Eu tentei levantá-lo. Aí ele enfiou a mão numa blusa até pensei que ele ia puxar uma arma e me preveni com minha pistola. O alemão fez sinal que não. Pegou e tirou uma fotografia e me mostrou ele, a mulher e duas crianças. Aquilo comove viu… pra entender que ele também tinha filhos… a guerra é ruim pra todo mundo. A guerra é o pior que pode acontecer.

Depoimento: João Gonzales

Meu pai era um homem muito pobre e minha mãe também. Eles se uniram já um tanto idosos, com 33 anos e tiveram cinco filhos. Hoje são vivos eu e um segundo. Os outros três faleceram… Meu pai era um homem muito pobre e, apesar de judeu, não sabia fazer dinheiro. Eu passei uma situação muito difícil na infância e na adolescência. Foi difícil estudar. Eu não tinha roupa para frequentar o ginásio. Usava um tênis de última qualidade, furado às vezes. Eu botava um papelão em cima do buraco para poder andar. Comecei a me estabilizar quando me tornei jornalista e passei a ganhar algum dinheiro. Com isso a minha situação começou a ficar estável, pois eu já não dependia da família. Eu devia ter então uns 17 anos. Eu estava no ginásio da Bahia, depois eu sai e fui aluno da Faculdade de Direito até o quarto ano. Aí eu fui para a FEB, fui soldado da FEB e a minha vida deslanchou.

Eu me incorporei em Salvador como voluntário. É preciso compreender o contexto daquela época. Os submarinos alemães torpedearam navios mercantes brasileiros e centenas de brasileiros morreram nesses naufrágios. Isso gerou uma indignação muito grande e eu participei das manifestações em Salvador, onde eu residia. Manifestações contra o Eixo e pela declaração de guerra, o que acabou ocorrendo. Getúlio Vargas, presidente do Brasil, acabou declarando guerra. Aí abriu-se o voluntariado em vários lugares do Brasil. O que ocorreu, um episódio curioso, o general que comandava a região de Salvador – eu me lembro o nome dele: general Demerval Peixoto – fez o seguinte desafio: “Os estudantes que pediam guerra, declaração de guerra tem agora a oportunidade de se apresentar como voluntários”. Eu considerei isso como um desafio pessoal e resolvi me apresentar. Fui ao quartel-general e me apresentei e acabei aceito. Já em Salvador fui incorporado e fui transferido para São Paulo, onde fiz algum treinamento. Depois fui transferido para a Itália.

Na época, eu já era do Partido Comunista. Ele estava meio desagregado naquela época por causa da repressão. Militei com Mário Alves – ele não foi incorporado porque não tinha condições físicas (Alves foi um importante dirigente do PCB e acabou assassinado durante o regime militar). O fato de eu ser comunista – o prestígio da União Soviética, que estava em guerra contra os nazistas – pesou na minha resolução. Quando chegamos à Itália já havia brasileiros em combate. Eu era da companhia de transmissões do 1º Regimento de Infantaria. Nosso comandante era o coronel Caiado de Castro, mais tarde chefe do gabinete militar de Getúlio Vargas. Eu era um simples soldado. Não fui mais do que isso. Era do pelotão de transmissões. Particularmente a minha tarefa e a da equipe a qual eu pertenci era de zelar pelos fios de transmissão, que, como o front estava estabilizado, eram rompidos por granadas. Às vezes éramos obrigados a sair da cama, nós estávamos na casa da camponeses italianos, para consertar o fio. Isso era uma tarefa penosa e perigosa, pois ficávamos expostos à agressividade da artilharia nazista.

O fato de ser judeu não tinha para mim nada de especial. Eu convivi como soldado igual aos outros. Não teve influência nem positiva nem negativa. Mas eu tinha uma noção de que se eu caísse nas mãos dos nazistas, eles facilmente saberiam que eu era judeu, circunciso, e eu estaria perdido. Não tinha jeito.

Vi a queda de Monte Castelo. Eu estava no sopé do monte. O que se deu é que anteriormente as tentativas de tomar monte castelo fracassaram por falta de experiência e insuficiência de tropa, mas naquele momento, em 1945, a tropa americana, que estava ao nosso lado tomou o Monte Belvedere, que ficava a cavaleiro de Monte Castelo, e isso facilitou a tomada do Castelo.

No fim da guerra testemunhei centenas e centenas de alemães soldados de braços levantados se rendendo. Até hoje eu gravei na memória o episódio de dois oficiais nazistas vestidos a capricho, uniformizados, se rendendo naquela fase final da guerra, para o major Sizeno Sarmento, que era comandante de uma unidade da Força Expedicionária. Eu me lembro desses dois oficiais nazistas claramente o que eles disseram: “Nichtmehrkrieg”, Não queremos mais guerra.

Um certo dia tivemos a notícia de que os alemães tinham se rendido incondicionalmente. E aí a guerra foi oficialmente, pelo nosso comando aliado, declarada vencida e terminada. Aí foi uma alegria tremenda. Nós nos abraçamos e cantamos. Foi uma alegria e – é claro – bebida tinha também, pois já não havia mais o perigo de morrermos em combate. Acabou-se esse perigo. Lembro de um companheiro dizendo: “Não vou morrer mais, não vou morrer mais!” Tínhamos sobrevivido. Durante a guerra, a perspectiva de morrer existia. Não vou dizer que não era constante. Mas a gente tinha de superar e se habituar a essa situação e viver para a frente.

De vez em quando me ocorrem lembranças daquela época… Eu me vejo uniformizado… Andando na lama… Subindo a rampa… Enfim essas coisas de vez em quando voltam à memória. A sensação que isso desperta em mim não é agradável. Eu prefiro não me lembrar… A guerra é sobretudo sujeira, lama, desconforto, perigo, sensação constante de perigo e a perspectiva da possibilidade de morrer.

Em agosto de 1945 voltei para o Brasil e continuei minha militância. Durante muito tempo no partido havia uma quantidade grande de quadros militares. Apolônio (Apolônio de Carvalho), o Agildo Barata e outros. A presença deles era forte no partido e influenciou. E o fato de Prestes ser um militar. O grande ícone. Ele estava na ocasião ainda preso. Cumpriu dez anos de prisão e era uma lenda, uma figura lendária (Luis Carlos Prestes era o secretário-geral do partido e havia sido preso após o levante comunista de 1935).

Nasci em 20 de janeiro de 1923. Estou com 89 anos, uma idade interessante. Ao lado de minha militância, a guerra foi uma das mais experiências mais importantes da minha vida. Tive outras: família, enfim, perigos que passei na vida clandestina de militante comunista. Fui preso, torturado. Minha vida teve momentos bons e momentos muito difíceis. Eu acho que atravessei essa trajetória honradamente. Não tenho nada do que me envergonhar. Não delatei. Não coloquei ninguém me perigo. Pra mim isso é honroso. Nem todo mundo pode dizer isso.

Depoimento: Enéas Sá de Araújo, capitão

Nasci em Caçapava, em São Paulo. Meu nome é Enéas Sá de Araújo. Eu servi no 6º Regimento de Infantaria, onde comandei um grupo de combate. Ah… vocês não sabem o que era a patrulha… A patrulha era… era jogar com a vida. Eu fiz duas patrulhas perigosíssimas e não dei nenhum tiro.

Então é sorte, é sorte… é sorte, né? Não houve encontro, não houve nada. Em nosso primeiro combate chegou era um sargento muito meu amigo. Ele estava com o rosto tudo cheio de sangue e chorava dizendo que estava cego. Limpei bem os olhos dele e disse: “Você não está cego, não”. Ele pegou a bala – a bala ricocheteou e pegou bem aqui de lado no rosto. Saiu muito sangue e escorreu por cima dos olhos dele.

Quem fazia a patrulha era o grupo de combate. Um pelotão, por exemplo, são trinta e tantos homens quase quarenta. Ele servia para um ataque, mas não para fazer patrulha. Patrulha eram dez homens, a facilidade de locomover e de se esconder, é muito mais fácil em uma patrulha de grupo de combate do que em um pelotão

Passei dois meses e meio na frente de combate até ser ferido em um lugar chamado Torre diNerone (Montes Apeninos).

Entramos em combate no dia 15 de setembro de 44. Foi quando o comandante da 5ª Companhia de Fuzileiros, o capitão Manoel Inácio de Souza Junior, reuniu todos os sargentos e oficiais num lugar e mostrou a vista. “Nesta noite, nós vamos já atacar os alemães. Eles devem estar naquela altura”, ele disse.

Mas quando começamos a nos deslocar, quase tudo acontecia com o primeiro pelotão, que ia na frente. Chegou um lugar lá que só passava um homem. Ficamos um atrás do outro. De repente, saímos numa estrada. Não tinha um tiro, não tinha nada, nem parecia que estava na guerra.

Ouvimos uns tiros no lado da quarta companhia. Alguma coisa devia estar acontecendo nos lados da quarta companhia. E lá fomos nós. Passamos mais de semana se deslocando. Chegávamos, abríamos o buraco e ficávamos ali, mas não havia um tiro. Não tinha nada. Assim foi até chegarmos a Fiano, quando aconteceu o primeiro combate.

Depoimento: Rui Moreira Lima, brigadeiro e piloto de caça

Eu estava em Natal fazendo a revisão de um P-40 (avião) quando abriu o voluntariado para o 1.º Grupo de Aviação de Caça. Dei meu nome. No dia seguinte, quando voltei para minha base em Salvador, meu comandante me disse: “Você fez besteira, rapaz. Vai para um lugar onde os caras já estão treinados. Vai ser como tiro ao pombo”. E eu respondi: “Mas eu não estou pensando nisso, eu estou pensando nos navios que foram afundados”. Em poucos dias, os alemães mataram centenas no litoral do Nordeste. Fomos treinados no Panamá e, depois, nos Estados Unidos. Só então embarcamos para a Itália.

No primeiro mês de combate, perdemos quatro pilotos. Fiz meu primeiro voo em 6 de novembro de 1944. Quando voltei da missão, fui entrevistado pela BBC. Foi quando chegou a confirmação da morte do Cordeiro (John Richardson Cordeiro e Silva), o primeiro piloto que morreu. Ele foi atacar Bolonha, a estação de estrada de ferro, que era muito protegida. Pegou um tiro. Eu vinha voando e ouvindo a conversa dele com o americano: ‘Meu avião foi atingido e tá pegando fogo. Tô perdendo altura e potência. Estou com rumo sul”. Ele estava a 17 km de Bolonha quando o avião bateu em um morro e explodiu. Ele morreu.

Minha mulher não gosta que eu fale, mas eu fiquei muito mal quando atirei pela primeira vez. As primeiras pessoas que eu destruí, a vida delas me custou muito caro. Os colegas me diziam: “Pô, tá medrando, fica chorando, vomitando aí”. Porque me causou um mal-estar muito grande quando eu puxei o gatilho e atirei nos caras. Eles estavam correndo, saindo de um jipe para entrar numa casa na campanha e eu atirei neles. Daí em diante, comecei a pensar: ‘Se eu não atirasse, esses estariam atirando e matando os meus’. Essa é crueza da guerra.

No dia 2 de maio de 1945, me apresentei para outra missão e, na sala de operações, de repente o alto-falante anunciou: ‘Attention, attention, please. The waris over, thewaris over’. Aí foi aquele silêncio maravilhoso e, em seguida, uma gritaria enorme. Abracei até quem não conhecia. O pessoal chorando, emocionado. Confesso que achei muito bonito. Dois momentos bonitos: o dia em que terminou a guerra e o dia em que pousei no Campo dos Afonsos (Rio) e encontrei minha mulher e minha filha. Ela tinha sete meses e eu não a conhecia. Deixei minha mulher grávida e só fui conhecer a menina depois da guerra.

confira todas as fotos da FEB e FAB na segunda guerra.

créditos: Historias Ilustradas

Este slideshow necessita de JavaScript.